Caraíva e o ex-Maroto da loja de brigadeiros

Eu sou meio cética em relação a essa coisa de astrologia, mas ultimamente tenho ouvido tanto falar nisso que vou começar com essa informação, para os que acreditam. Sou sagitário com ascendente em sagitário, uma pessoa que gosta de se aventurar e fazer coisas, não ficar refletindo sobre a vida.

Essa história é sobre a vez que eu decidi que eu precisava viajar e ficar sozinha para refletir sobre a vida.

Foi no ano de 2012, eu tinha voltado da Guatemala depois de um ano morando lá, não queria trabalhar em Recursos Humanos de novo, mas não sabia o que eu queria e ainda tava namorando um cara bad vibe que passava a maior parte do tempo no Rio (o cara era legal, mas tava num momento ruim da vida dele).

Como eu estava meio sem rumo ficava muito em casa vendo séries e filmes, e via aquele povo indo viajar e voltando diferente, se descobrindo ou se reencontrando depois de seis meses viajando pelo Himalaia e coisas do tipo. Como era Outubro e estava bem calor, eu decidi ir para Caraíva, ficar sozinha em uma pousada de frente para o mar.

Pesquisei tudo na Internet e já tinha uma imagem mental bem formada na minha cabeça. Eu ia acordar todo dia junto com o sol, meditar na minha varanda, tomar um café da manhã delicioso bem cedo pra ficar sozinha, ia andar muito pela praia, cada dia parando em um lugar. Ia tomar muito banho de mar pra me reenergizar, ia comer comidinha caseira todos os dias, visitar a reserva indígena da região, meditar de novo, ficar observando o por do sol, ler um livro e dormir super cedo pra madrugar no dia seguinte. E claro, no final eu estaria com a mente limpa e esclarecida sobre o que eu deveria fazer quando voltasse.

No dia marcado eu fui para o aeroporto, meu vôo era para Porto Seguro. Cheguei tranquila, naquela calor de 50C da Bahia e fui pro meu hotel porque eu passaria a noite ali. No dia seguinte beeeem cedo eu peguei a balsa para Arraial d’Ajuda e de fui para o ponto esperar o ônibus que me levaria para Caraíva.

Vou ser bem honesta, foi um inferno na terra. Não sei como está hoje, mas na época só tinha um ônibus que ia para Caraíva e o horário de saída era aproximado. Fiquei horas esperando embaixo daquele sol de rachar a cuca e quando saímos só tinha eu e mais umas três pessoas no ônibus, que obviamente não tinha ar condicionado. O ônibus parou em mil e dois lugares no caminho e, o que era para demorar três horas, demorou seis! Seis horas dentro daquele ônibus quente, suando em bicas, grudada naquele banco, sem comer nada e tendo que conversar com estranhos (coisa que eu detesto) que insistiam em puxar assunto. Mas tudo bem, era o preço a se pagar para que eu tivesse os 10 dias mais medidativos e introspectivos da minha vida.

Depois de quase 10 horas da minha saída do hotel em Porto Seguro eu cheguei em Caraíva. Quer dizer, cheguei no estacionamento dos carros, porque de lá você tem que pegar um tipo de canoa para atravessar o riozinho para só então chegar em Caraíva.

A canoa

Mas é super tranquilo, o riozinho é estreito, eu só não fui nadando porque não queria molhar as roupas que estavam na mala. Era uma “travessia” de no máximo 2 minutos. O tiozinho da canoa foi lá me buscar, colocou a minha mala e eu entrei. Passados uns 30 segundos que eu tô lá dentro me aparece um jacaré do lado da canoa, do lado. Eu fiquei tão nervosa, comecei a gritar e levantei tão bruscamente que a canoa virou. A porra da canoa virou e a minha mala caiu na água e eu desesperada com a certeza de que o jacaré ia me matar ali mesmo. Gente, era um menino. ERA UM MENINO nadando com um boné!! Não tinha jacaré no rio e eu e a minha mala nos molhamos a toa. E ainda tive que pagar um extra para o canoeiro, o que eu fiz com todo o prazer, de tanta que era a vergonha.

Mas cheguei. Foi um alívio tão grande pisar naquela areia branquinha de Caraíva que eu até deixei pra trás a raiva que eu passei durante o dia.

Fui andando até a minha pousada que era linda, exatamente como nas fotos! E o meu quarto era perfeito, pé na areia, de frente para o mar, do jeito que eu queria. Como já era de noite eu não consegui ver muito mais coisa, mas a dona da pousada era maravilhosa e me ofereceu um jantar, eu comi e fui dormir.

A pousada, meu quarto era esse da frente

Vista da minha varanda

Não dormi. Não dormi porque o quarto era na beira do mar e o barulho das ondas me davam uma vontade desesperadora de fazer xixi. Passei a noite inteira levantando de hora em hora para fazer xixi. Com isso não consegui acordar cedo no dia seguinte para meditar vendo o sol nascer da minha varanda, o que tudo bem já que eu descobri que o sol nascia do outro lado.

Mas o resto do plano ainda tava de pé. Tomei um café da manhã maravilhoso e fui andar pela praia, para pensar. Agora vejam vocês, quem me conhece sabe que eu sou daquelas pessoas brancas que olha pro sol e já fica vermelha. Não sei porque raios eu achei que eu ia passar o dia andando pela praia e ia ficar tudo bem. Antes do almoço eu já voltei pra pousada toda vermelha e ardendo.

Almocei e passei o resto do dia dentro do quarto vendo Vale a Pena ver de novo e passando o creme de Aloe Vera que eu comprei na pousada. Mas consegui ver o sol se por da minha varanda, não meditei porque tava com muita raiva.

Nessa noite eu não dormi de novo e já adianto que não dormi em nenhuma outra noite porque eu não parava de fazer xixi. Mas no dia seguinte levantei cedo, tomei café e fui ler um livro embaixo de uma árvore que estava numa sombrinha. Li um pouco e acabei dormindo ali mesmo, em cima da minha canga. Acordei coberta por formigas, que vieram atraídas pelo pedaço de bolo que estava em cima da minha canga que eu tinha pegado no café da manhã. Não fui picada, mas levantei gritando, a parte de cima do meu biquini desamarrou e eu saí de peito de fora correndo pela pousada. Mas beleza.

No terceiro dia aconteceu uma coisa maravilhosa. Eu já estava melhor das queimaduras, já tinha superado o episódio das formigas e já estava adaptada a não dormir, então logo depois do café da manhã, que era sempre maravilhoso, eu fui dar uma andada pela vilazinha. Depois de uns cinco minutos andando eu cheguei numa brigaderia. Fiquei muito intrigada, Caraíva é uma vila de pescadores, não tem absolutamente nada, quem teve a ideia de abrir uma brigadeiria ali? Entrei e o dono e único funcionário era um cara que mudou todo o rumo da minha viagem. Ele era casado com o maquiador Carrasco, que tinha participado de “A Fazenda”, disse que desde então o casamento estava em crise e resolveu dar um tempo e abrir esse negócio lá. Mas o mais legal é que ele era um ex Maroto, ele tinha sido dançarino da Mara Maravilha!!

Super nos conectamos, ele estava chateado com o marido e precisando de alguém pra conversar e eu já tinha aceitado que não ia meditar e nem andar o dia todo pela praia. Ele me mostrou umas coisas super legais da região, me apresentou umas pessoas fantásticas que tinham se aposentado e ido morar lá e todos os dias a gente se reunia com algumas dessas pessoas para bater papo, foi demais.

De volta a praia depois de me recuperar das queimaduras
O ex-Maroto

E pra completar, no meu último dia, quando eu estava tomando café da manhã eu perguntei para a dona da pousada se era muito longe pra andar até a Praia do Espelho. O casal que estava na mesa do lado ouviu e imediatamente me ofereceu o carro que eles tinham alugado. Disseram que estava parado no estacionamento, que eles não iam usar e que eu podia pegar e devolver a noite. Foi o último dia perfeito, fui pra Praia do Espelho de dia, de noite me despedi dos meus novos amigos de Caraíva e no dia seguinte peguei a canoa, o ônibus, a balsa e o avião.

Não meditei e não fiquei parada pensando na vida nem por um momento. Mas voltei mais leve, parece que o meu mundo se abriu ao conhecer todas aquelas pessoas maravilhosas. Cheguei em SP, terminei com o meu namorado e, uns dois meses depois conheci o meu marido.

Percebi que toda a raiva que eu passei eu mesma tinha atraído para mim e que a energia que nos cerca somos nós que escolhemos, hoje eu tento escolher uma energia mais de paz, o que não me impede de passar raiva, mas agora eu dou risada e conto para vocês.

4 comentários sobre “Caraíva e o ex-Maroto da loja de brigadeiros

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