Um conto canino de Natal

Andei meio sem inspiração para escrever, mas essa semana me trouxe justamente o que eu estava precisando. Prepara o vinho que lá vem história.

Tudo começou na sexta-feira, no fim da tarde. Peguei o carro para buscar a Lara na escola, mas antes de chegar no fim da rua um cachorro pulou na frente do meu carro. Por sorte eu estava bem devagar, estacionei o carro e desci pra ver o que estava acontecendo. Ela veio correndo para o meu lado e grudou na minha perna.

Fiquei completamente sem saber o que fazer, porque esse não é o comportamento normal de um cão de rua, imaginei que ela provavelmente fugiu de algum lugar e não sabia o que fazer. Uma vizinha da rua estava passando, parou para ver o que estava acontecendo e eu pedi uma coleira emprestada para poder levar a cã para o veterinário, para ver se ela tinha chip.

A bichinha estava com uma coleira muito velha, sem número de telefone e com um cordão rosa, tipo um cadarço, amarrado no pescoço. A vizinha me emprestou uma coleira melhor e a guia, coloquei no pescoço dela e abri a porta do carro. Ela pulou imediatamente para dentro e se acomodou no chão do banco de trás.

Levei ela ao veterinário, que fica há 3 minutos da minha casa, e ela dormiu no caminho. Devia estar exausta de estar na rua sozinha, ainda mais com o frio horrível que está fazendo aqui. Chegando lá pedi para a recepcionista ver se ela tinha chip e ela tinha!!

Fiquei toda animada. Tirei uma foto das telas com as informações do chip e liguei de lá mesmo para o número cadastrado, estava desconectado.

Fiquei meio sem saber o que fazer, porque eu precisava buscar a Lara na creche correndo, então botei a bichinha no carro de novo e fui pra lá com ela deitada no chão do banco de trás. Ela dormiu o tempo todo. Peguei a Lara e ela continuou dormindo e assim foi até em casa.

Estacionei o carro e Paulo Eduardo estava na porta esperando nossa filhota. Falei pra ele que eu estava colocando o nosso casamento em risco, mas que ele precisava vir até o carro. Expliquei a história toda e ele sugeriu que a gente fosse até o endereço que estava no chip. Entramos todos no carro e fomos, ficava em outra cidade, há meia hora de casa.

Chegamos e tocamos a campainha, mas a casa claramente estava vazia, meio em reforma. Tocamos no vizinho e o senhor nos disse que morava lá há um ano e nunca tinha visto ninguém naquela casa e nem aquela dog por ali.

Estava escuro, muito frio e não tinha a menor possibilidade de deixar a cã na rua. Voltamos para casa, arrumamos uma caminha para ela na nossa garagem, demos água e comida e ela ficou por lá.

Ela comeu, bebeu água e dormiu imediatamente. A bichinha estava bem judiada, muito magra, pelo todo embaraçado, nariz machucado, olho com infecção e extremamente cansada. Partiu meu coração. Mas pelo menos ela dormiu quentinha e protegida naquela noite.

Se a gente já não tivesse dois cachorros, se a Mali não fosse tão arisca e aceitasse outros cães e se a gente não se mudasse com tanta frequência, eu teria ficado com ela naquele momento. Infelizmente a gente não tem condições de ter outro cachorro e ela só poderia ficar com a gente por pouco tempo.

Imediatamente entrei em contato com uma mulher que é voluntária em uma ONG que ajuda animais, que eu conheci por conta de uma outra situação, e ela foi ótima. Falou que ia acionar todos os contatos que ela tem e que ia tentar achar uma instituição para levarmos a bichinha (que de acordo com o chip se chamava Mea). Fiquei mais aliviada, mas fui dormir chorando pensando no que ela já tinha sofrido e o que poderia acontecer.

No sábado de manhã a moça me mandou um post que ela viu no Facebook com a foto da Mea em outro local onde ela tinha sido vista, mas ninguém a conhecia. Logo em seguida ela me mandou um post de uma cã desaparecida muito parecida com a nossa, que havia sido roubada há quatro anos, mas os donos continuavam procurando.

Fiquei muito esperançosa, esse seria o conto de Natal mais perfeito desse mundo. Eles trocaram muitas mensagens e informações e, infelizmente, chegaram à conclusão de que não era ela. Chorei mais.

A mulher da ONG me ligou e disse que iria passar aqui a tarde. A gente imaginou que ela tinha achado um lar temporário e ia levar a doguinha para uma boa casa, mas ela chegou aqui só com notícias ruins.

Em primeiro lugar ela disse que não havia ainda encontrado um lar temporário e que a única opção naquele momento era levá-la para o canil da cidade, que é melhor que a rua, mas não é um lugar legal.

Ela nos disse que tinha um amigo na polícia que deu uma olhada nos dados da pessoa que estava no chip e que eles eram falsos. O documento estava cancelado e o endereço e o telefone e o endereço não estava ligados à pessoa que estava lá. Além disso as informações em relação à cã estavam incorretas, dizia que ela era preta e que tinha nove anos, quando ela é cinza e, pelo que ela viu pelos dentes, tinha em torno de um ano. Isso significava que alguém havia colocado um chip falso para que os donos não fossem encontrados.

O pior veio depois. Aquele cordão rosa que ela trazia no pescoço significava que ela havia sido roubada por alguém que faz parte de um grupo de pessoas terríveis aqui em Portugal que, entre outras coisas, rouba cães de raça para vender ou para procriar (tá aí um ótimo motivo para adotar e não comprar animais), e que esse grupo tratava os animais muito mal e que muitas vezes iam atrás das pessoas que os resgatavam. Concordamos em ficar com ela mais alguns dias e não sair com ela nem portão, para que ninguém visse que ela estava lá. Chorei muito mais.

Ela e o amigo dela deram uma examinada na Mea, que é uma cadela extremamente dócil e simpática, e encontraram sinais de que ela vivia acorrentada. Havia marcas no pescoço e as pernas estavam atrofiadas de ficar parada no mesmo lugar. Me debulhei em lágrimas.

Isso tudo aconteceu no sábado a tarde. Deitei para dormir e quando fui desligar o celular ela me mandou uma mensagem com uma foto de um outro cão desaparecido, também muito parecido com ela. Ela estava trocando mensagens com o dono, que era britânico e mal falava português. Pedi para ela passar meu contato para ele que eu responderia amanhã.

Acordei domingo de manhã com várias mensagens deles. Era um casal que morava há 200km daqui, cuja cadela havia sido roubada há quatro meses, eles estavam desesperados. Trocamos algumas informações e eles perguntaram se poderiam vir ver a Mea para confirmar se era a cadela deles. Obviamente que eu disse sim. Eles disseram que iriam demorar umas 5 horas porque estavam em Valência, na Espanha, comemorando o aniversário de casamento, mas que sairiam imediatamente.

Chorei, mas dessa vez de felicidade. Não era possível que não fosse a mesma cã. Eles iam dirigir 5 horas só para vê-la.

Chamei a moça da ONG para vir também. O casal chegou lá pelas 13h, olharam para a Mea e imediatamente disseram que não era a cadela delas, que ela era maior e tinha algumas outras diferenças.

Fiquei arrasada. Ficamos conversando no quintal, eles perguntaram como eu a achei, o que faríamos com ela e todas aquelas coisas e, depois de mais de uma hora, pediram para conversar em particular.

Como esse é um conto de Natal que obviamente tem um final feliz, eu não preciso fazer mais suspense, eles decidiram ficar com ela!!! Eles moram em uma fazenda ENORME, têm mais um cão que apareceu por lá e eles adotaram e o melhor, são pessoas maravilhosas.

Abracei a bichinha, que ficou encharcada com as minhas lágrimas, essas de felicidade. Ela vai viver uma vida tão boa e tão feliz. Eles prometeram manter contato, trocamos @ e eles já me mandaram uma mensagem dizendo que chegaram em casa (uma viagem de 3 horas), que a Mea está ótima e que amanhã tem banho e tosa e eles vão me mandar fotos.

Esse foi o meu presente de Natal, o melhor que eu poderia querer. Desci na garagem agora e me deu um aperto no coração de não vê-lá, mas também um quentinho de saber que ela vai viver a vida que ela sempre mereceu ter.

E esse vai ser um Natal feliz, muito feliz, para nós, para ela e com certeza para você também!

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