Perrengues de Imigrante – Parte 3

E lá fui eu para a minha prova prática de direção.

Dois dias antes da data marcada a minha auto-escola me mandou um SMS pedindo para que eu estivesse lá às 7:00 da manhã e levasse 30 euros. Sim, porque além de pagar (MUITO) por todo o processo ainda tem que pagar separadamente pelas provas.

Eu estava super tranquila. Primeiro porque tirei minha primeira carta de motorista em 1998. Dirigi em São Paulo, Porto Alegre, Guatemala, Estados Unidos e até na Austrália, onde a direção fica do lado oposto, então não tinha como não passar.

E segundo porque, tinha feito umas 3 aulas práticas com o instrutor para ele me mostrar o que eles esperam na prova, quais manobras eu teria que fazer e coisas assim.

Ele me explicou que a prova dura 45 minutos, nos primeiros 5 o avaliador faz perguntas sobre o funcionamento do carro, tipo onde ficam os faróis, quando usar a buzina, para que serve o velocímetro e coisas do tipo. Depois disso você vai dirigindo pelas ruas pouco movimentadas da cidade, conforme indicação do avaliador, e por fim tem que fazer quatro manobras, estacionar paralelamente à calçada (mas sem carros na frente e atrás), dar ré em uma esquina, mudar a direção em uma rua de duas mãos e estacionar entre dois carros (tipo nos estacionamentos de shopping). De tudo isso, a minha maior preocupação era não entender o que o avaliador estava me mandando fazer, às vezes não é fácil entender o pessoal aqui.

De acordo com a lei eu deveria ter feito 16 horas de aulas práticas, mas assim como nas aulas teóricas, a dona da auto-escola deu aquele jeitinho, já que ela mesma considerava desnecessário eu fazer tudo aquilo de aulas.

Cheguei na auto-escola as 7 da manhã do dia marcado e já havia um rapaz lá esperando. Nós dois iríamos fazer a prova naquele dia. Ele tinha 20 anos, não tinha nem nascido quando eu tirei a minha primeira carta.

Entramos no carro do instrutor e ele nos levou até o local onde seria realizada a prova. No caminho ele foi fazendo perguntas sobre o funcionamento do carro, que mais tarde teríamos que responder pra valer e nos explicou que meu companheiro faria a prova às 8:30 e eu às 9:25. Achei estranha essa pontualidade, já que aqui raramente alguma coisa acontece na hora marcada, mas enfim.

Chegando lá ele nos mostrou de onde sairíamos e fez conosco alguns dos possíveis percursos que os avaliadores poderiam fazer e aí veio o pulo do gato. Ele nos explicou que havia vários avaliadores e que, antes das provas, eles faziam um sorteio para ver quem ia com quem. Disse que alguns eram mais rigídos e outros mais tranquilos (como tudo mais aqui, sempre dependende de com quem você fala). E a prova durava 45 minutos, então a prova que começava às 8:30 tinha que terminar às 9:15, para que eles pudessem se organizar e fazer o sorteio da próxima turma que saía às 9:25, MAS (e sempre tem um mas), que muitas vezes eles enrolavam para começar um pouco mais tarde para que a prova durasse menos tempo. Sim, os próprios avaliadores enrolam para que a prova demore mais para começar e dure menos tempo, já que o horário de acabar é fixo.

Chegou 8:30, o instrutor com o meu companheiro de prova foram para o local e eu fiquei em um café bem em frente de onde estavam todos os carros, só observando os carros saindo para fazer o circuito. Alguns saíram às 8:35, alguns às 8:40 e o nosso saiu próximo às 8:45. Tomei meu café bem despreocupada, escutando um podcast até que chegou a minha hora.

Meu companheiro de 20 anos voltou bem feliz que tinha passado e eu segui com o nosso instrutor para o local onde eles estavam chamando cada um de nós para começar a prova. Chamaram uma pessoa, depois outra, depois outra e nada de me chamarem, comecei a ficar tensa, mas meu instrutor falou que era assim mesmo, melhor pra mim que a prova ia durar menos tempo. Lá pelas 9:45 eu fui chamada (20 minutos depois do horário oficial de início da minha prova) e fui apresentada ao meu avaliador e aí, nesse momento, eu comecei a ficar nervosa.

O homem era um monumento, ele parecia o Paulo Zulu nos tempos áureos, moreno, alto, uns olhos pretos lindos e um sorriso de matar (na minha imaginação, porque ele tava de máscara). Fiquei com medo de não conseguir passar de tão nervosa.

Entramos no carro, ele do meu lado e o instrutor da auto-escola atrás, e ele me mandou sair, decidiu não me fazer as perguntas sobre o funcionamento do carro. Saímos e já na primeira esquina ele perguntou se eu já dirigia há tempos, eu respondi que sim e a partir daí foi só alegria. Fomos conversando o caminho inteiro como bons amigos. Lembrando agora, se ele não fosse tão legal poderia ter me reprovado, porque várias vezes eu tirei as duas mãos do volante pra contar uma história. Quinze minutos dirigindo e ele me mandou voltar sem fazer nenhuma manobra e me passou.

Voltei feliz da vida, o instrutor também, afinal quanto mais gente passa melhor para a auto-escola, e saí de lá com a minha autorização provisória para dirigir, que vale por 90 dias. Nesse tempo eu tenho que ir até a auto-escola e tirar uma foto para eles mandarem para o Departamento de Trânsito que irá enviar a carta definitiva para a minha casa.

Ainda não fui tirar a carta porque o meu endereço nas finanças ainda não está atualizado (finanças é um dos muitos órgãos do governo aqui onde você tem que atualizar seu endereço quando muda). Tentei atualizar, mas tinha que mandar um documento comprovando minha residência. Mandei um comprovante que as finanças me deram quando eu fui registrar meu contato de aluguel, mas eles não aceitaram. Eles não aceitaram o documento que eles mesmos emitiram. Mas essa história fica pra outra vez, por enquanto vou curtir mais essa etapa vencida dessa jornada doida que é ser imigrante em qualquer lugar.

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