Todo mundo merece um bom serviço

Já contei aqui que eu fui garçonete na Austrália. Além de algum dinheiro, esse trabalho me rendeu muitas histórias fantásticas e hoje eu decidi contar uma delas, mas vou começar do começo.

Quando eu fui fazer esse mestrado na Austrália eu tinha 29 anos. Já tinha trabalhado muito e juntado um bom dinheiro, então eu fui com a intenção de não trabalhar e só estudar.

Claro que a ideia de só estudar foi absolutamente imaginária. Eu tinha quatro aulas de duas horas por semana, ou seja, oito horas de aulas semanais, ou seja, muito tempo livre. Cada um dos cursos exigia duas dissertações bem complexas e eu passava um bom tempo na biblioteca, mas não era nada que ocupasse minha semana e finais de semanas inteiros.

Além disso, logo no começo já conheci um monte de gente e a minha vida social era muito agitada e eu acabei gastando no primeiro semestre muito mais do que eu imaginava, mesmo só tomando vinho de caixa e cerveja barata.

O meu visto de estudante me dava a possibilidade de trabalhar 20 horas por semana, mas minhas aulas eram em horários aleatórios, manhã, tarde e noite, então não dava pra achar um emprego que tivesse horário determinado. Decidi fazer o que muitos estudantes fazem, trabalhar numa empresa de catering (que fornece garçons e serviços para festas e eventos), como garçonete.

Foi a primeira vez na minha vida que eu menti no meu currículo, para menos. Eu saí do Brasil como gerente de RH, mas no meu currículo coloquei que eu trabalhava de garçonete num quiosque de praia. Escolhi o quiosque de praia porque eu tinha medo que eles me fizessem perguntas específicas sobre servir em restaurantes, etiqueta de mesa e tals, achei que o quiosque era um bom trabalho informal e descolado que combinava com as vagas para as quais eu ia aplicar.

Logo que mandei meu currículo fui chamada por uma empresa para uma entrevista e um teste. Fiquei nervosa pelos dois. Teria que mentir descaradamente na entrevista e não fazia ideia do que ia ser aquele teste. Liguei pra minha amiga Ludmila (que eu já apresentei nesse post aqui), que já trabalhava numa dessas empresas e pedi pra ela me contar sobre esse teste.

Ela me ensinou tudo. Como dobra guardanapo, de que lado serve bebida e comida e todas essas coisas que a gente nem presta atenção quando é cliente. Mas o mais importante, ela me disse, era conseguir segurar três pratos em um mesmo braço, e isso minha gente, é mais difícil do que parece. Ela treinou comigo, me mostrou como segurar pratos redondos e quadrados, onde colocar a força, como não fazer careta no processo e tudo mais que eu precisava saber.

Chegado o dia eu fui lá na empresa. Durante a entrevista eu fui o mais vaga possível, inventei umas mentirinhas sem entrar em muitos detalhes e eles pareceram satisfeitos. Chegou a hora do teste. A única coisa que a mulher me pediu para fazer foi segurar os três pratos em um braço só. Santa Ludmila. Peguei os pratos, botei no braço e dei uma risadinha de canto de boca. A entrevistadora ficou feliz e perguntou quando eu poderia começar.

Em outra ocasião vou contar de como foi esse começo, das trapalhadas e de como eu fui eleita a melhor caixa de bar de bebidas de jogos de futebol americano, hoje vou contar do dia que eu fui chamada para ser líder dos garçons pela primeira vez.

Eu já estava trabalhando nessa empresa a alguns meses e, normalmente, eles me avisavam de algum trabalho com 3 ou 4 dias de antecedência, mas dessa vez eles me ligaram e disseram que era um trabalho de última hora, para aquela tarde e que eles queriam que eu fosse a líder dos garçons porque eu era a que tinha mais experiência do grupo.

Parece muito chique essa coisa de ser líder, mas o salário era o mesmo e a principal função era evitar que os garçons comessem ou bebessem as coisas enquanto trabalhavam, não tinha muito glamour, mas como líder você acabava sendo chamado para os melhores trabalhos, as festas mais chiques e isso eu queria, então aceitei.

Como de costume eles me mandaram o endereço e o horário por mensagem, mas dessa vez não deram detalhes. Coloquei no Google e vi que o evento seria em uma universidade até que perto da minha casa, achei ótimo, adoro o ambiente acadêmico.

Cheguei lá um pouco antes do horário marcado, entrei na cozinha onde o pessoal estava organizando as comidas e as bebidas, me apresentei, conheci toda a equipe que estaria trabalhando naquele dia e vi que todos estavam se olhando meio de lado. Perguntei se estava tudo bem e eles me perguntaram se eu sabia que evento era aquele, eu disse que não, eles me falaram pra ir até o salão dar uma olhada.

O evento ainda não tinha começado, não tinha ninguém circulando por lá ainda, eu entrei no salão vazio e a única coisa que eu vi foi um caixão bem no meio da sala. Um caixão aberto com um corpo dentro. Um corpo! Um homem de uns 70 anos, de terno e morto. O evento era um velório!

Fiquei ali parada, olhando pro caixão, pensando que evento era evento, eu era a líder dos garçons e tinha que fazer o meu melhor. Voltei para a cozinha, já quase na hora marcada, e me disseram que uma das meninas que ia trabalhar tinha ido embora. Ela era mexicana, muito religiosa e se recusou a servir petit fours com um corpo no meio da sala. Não fiquei feliz, mas entendi.

O velório começou. Fiquei sabendo que aquele senhor havia sido professor da universidade por mais de 30 anos e por isso decidiram velá-lo ali.

Fomos indo para o salão com as bandejas e a situação foi de bizarra para mais bizarra. Estava todo mundo de preto, muitos chorando, e nós oferecendo vinho branco e torradinha com salmão, fingindo que não tinha um caixão bem ali no meio.

E o pessoal estava enchendo a cara, bebendo sem parar. E comendo também, era uma lágrima e uma mordida. Eu não sabia se ria ou se chorava.

Passadas duas horas do início já tinha bastante gente alcoolizada e ninguém mais chorando. O caixão já estava sendo ignorado e as pessoas estavam conversando como se estivessem em uma festa, clima de paquera e tudo. Achei um bom jeito de se despedir daquele professor, comendo, bebendo e paquerando, talvez eu queira um velório assim também.

Vez ou outra eu ia até o caixão ver se tinham algumas migalhas de comida no terno do professor, tarefa essa que me foi dada pela organizadora do evento. Sempre tinham migalhas e eu tinha que tirá-las. Até hoje não sei se aquilo era ou não parte do meu trabalho, mas eu só pensava na história que teria pra contar depois.

Chegando em casa eu liguei para a empresa para reportar como havia sido tudo e perguntei se era normal as pessoas contratarem uma empresa de catering para um velório. A moça da empresa gentilmente me disse “todo mundo, vivo ou morto, merece um bom serviço”.

E ficam então essas duas lições de vida para vocês: “esteja o cliente vivo ou morto, faça o seu melhor” e “quando em uma situação bizarra, pense na história que você terá para contar”.

5 comentários sobre “Todo mundo merece um bom serviço

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