Perrengues de Imigrante – Parte 2

Na primeira parte dessa série cheia de tensão e ansiedade, quase um suspense ficcional não fosse o fato de ser tudo verdade, eu contei a minha saga, ainda inacabada, para tirar a carta de motorista em Portugal. Em breve trarei mais novidades sobre esse assunto.

Essa segunda parte, cronologicamente, teve início antes da história da carta de motorista, na verdade começou há exatamente um ano, no começo de outubro de 2020. Pegue sua bebida de preferência e prepare-se para mais momentos de muito nervoso, suspense e tensão.

Quem não leu toda a nossa saga para conseguir vir para Portugal, a história tá toda contada nesse post aqui. Mas resumindo tudo, ficamos presos nos Estados Unidos, sem poder trabalhar e sem saber como viríamos para cá. A ideia inicial era eu vir com o meu passaporte italiano, que eu acabei não conseguindo tirar por conta da burocracia do consulado italiano e pela covid. A solução que arranjamos foi eu abrir uma empresa aqui em Portugal e vir com o visto de empreendedor, chamado D2.

E é aí que começa essa nossa história de hoje. O visto D2 permite que o empreendedor e sua família tenham residência temporária em Portugal, que pode ir sendo renovada a cada dois anos. Muito parecido com o visto de trabalho que eu tinha nos Estados Unidos, o L1.

No caso do visto dos EUA, a empresa me deu o visto L1 e Paulo Eduardo automaticamente já recebeu o visto L2, para cônjuges do L1, portanto já fomos para os EUA com os vistos e fomos renovando a cada dois anos (a Lara não existia nessa época).

No caso do D2, aqui de Portugal, eu recebi o visto no meu passaporte, mas Paulo Eduardo e Lara não receberam nenhum visto ou carimbo no deles para que pudessem entrar no país. Então no começo de outubro de 2020, quando o meu passaporte com o visto chegou, tivemos que mandar um email para o SEF (órgão de imigração português), pedindo para que eles autorizassem a entrada dos dois no país como meus acompanhantes. Depois de alguns dias eles responderam o email e mandaram a gente imprimir e levar o papel conosco na viagem. Quando chegássemos em Portugal, após eu receber a minha residência, o que estava marcado para o fim de novembro, marcaríamos um reagrupamento familiar no SEF, para que PE e Lara recebessem a deles.

Os problemas já começaram no aeroporto de Atlanta. O nosso vôo era da TAP, mas a TAP só faz NY – Lisboa, então uma cia aérea parceira, se eu não me engano a American Airlines faria o trecho Atlanta – NY. Chegamos no balcão do check in, eu mostrei meu visto e expliquei que PE e Lara não tinham visto para Portugal, mas tínhamos um email impresso. Obviamente a pessoa não acreditou, achou um absurdo que eles quisessem embarcar sem visto, mas com um email, que poderia ser facilmente falsificado, e pior, um email em português, que nenhum dos funcionários conseguia entender.

Nem vou me arrastar muito nessa parte porque ainda tem muita história por vir. Basicamente todos os funcionários do balcão se envolveram na história, ligaram pra TAP, ligaram pra mil pessoas e lugares, botaram o email no Google translate, até que finalmente nos deixaram embarcar. Chegando em NY, passamos pelo balcão da TAP e uma pequena confusão também aconteceu, mas nesse caso foi mais rápido porque todo mundo falava português.

Finalmente chegamos em Portugal, passamos um mês tentando alugar uma casa porque ninguém quer alugar para brasileiros sem comprovante de renda e de IR. Tentamos explicar que tínhamos tudo isso, mas era dos Estados Unidos, mas ninguém se importava. Felizmente ainda tem gente boa nesse mundo e encontramos um casal cujo filho tinha ido morar na Alemanha e havia passado pelo mesmo problema e eles decidiram alugar para nós.

Chegou novembro e com ele a data que o SEF tinha marcado para eu ir lá pedir a minha residência. Entrei no site, peguei a lista de documentos que eles pediram, coloquei tudo numa pastinha e fiquei esperando o dia chegar. Faltando alguns dias eu descobri que, dependendo de qual atendente você pega, eles podem pedir outros documentos que não estão no site. Aliás, eu vim a descobrir que “depende de com quem você fala” é algo bem comum por aqui.

Com isso eu juntei mais um monte de documentos que talvez alguém pudesse me pedir e fui. Meu horário era em uma quinta-feira às 19h. Cheguei e fui recebida com um “você é a última pessoa que eu vou atender hoje, estava aqui nesse frio só te esperando”. Eu tinha chegado 10 minutos antes e eles que tinham marcado o horário. E daí só piorou, a mulher me pedia mais documentos, ela perguntava se eu tinha mais alguma coisa para mostrar, eu perguntava o que exatamente ela queria e ela dizia que eu não tinha levado documentos suficientes, mas sem especificar o que era. Mas consegui, ela me deu um papel e disse que “se não estivesse errado, eu iria receber minha residência em casa”. Nunca fiquei sabendo o que poderia estar errado, mas o negócio chegou uma semana depois.

Aí começou o processo de marcar o reagrupamento familiar para a Lara e o Paulo Eduardo, para que eles recebessem a residência deles. A ideia é simples, você liga no SEF, agenda um horário, vai toda a família lá com um monte de documentos, que podem ou não estar listados no site, prova que a família tem meios de se sustentar e eles enviam a residência para casa.

Pulemos então para hoje, 1 de outubro de 2021, data em que Paulo Eduardo e Lara ainda não têm a residência e nós ainda não conseguimos agendar um horário para fazer o reagrupamento. E não foi por falta de tentar.

Desde dezembro do ano passado que ligamos TODOS OS DIAS para o SEF para tentar marcar, mas eles dizem que não tem data e nem previsão de ter. E a gente continua ligando e eles continuam dizendo isso. Nessa segunda-feira, eles postaram que iriam abrir novas datas para reagrupamento. Tentamos ligar o dia inteiro e nada, era impossível falar. Na terça-feira, depois de 40 minutos tentando, 520 ligacões (sem exagero), a chamada caiu na espera. Meu coração quase veio na boca. Esperamos mais 40 minutos ouvindo aquela musiquinha de telefone até que alguém nos atendeu e adivinha!!! Não tinham mais vagas para reagrupamento.

Pelo menos eu consegui marcar para tirar uma segunda via da minha residência, que veio errada. Ao invés de eles colocarem o meu número de NIF (tipo um CPF), colocaram o de Paulo Eduardo, que não tem residência, mas tem renda e paga impostos.

Desde então continuamos ligando todos os dias, e continuamos ouvindo que não tem data na agenda e nem previsão de ter. Tudo isso para resolver um problema que eles mesmos criaram. Se eles tivessem dado esse visto para PE e Lara junto com o meu, o que está na lei, a gente não teria que ficar marcando pra fazer isso aqui. É um desperdício de recursos do governo sem fim, porque são milhares de outros imigrantes, de todos os lugares, na mesma situação.

Para completar, esse fim-de-semana uns amigos nossos vieram aqui em casa e comentaram que o nosso carro não tinha a etiqueta de inspeção. Fiquei desesperada porque eu não fazia ideia de que existia isso de inspeção. Fui ver e deveríamos ter feito esse negócio até abril desse ano. Fui lá num lugar, fiz a inspeção naquele dia mesmo e o cara colou a etiqueta no vidro para mim, mas ele me alertou de que eu também precisaria ter um papelzinho do seguro colado no vidro, coisa que eu também não fazia ideia.

Liguei para o seguro, só dava ocupado, mas eles te davam a opção de call back, se você clicasse no número 1 eles te ligariam de volta, num prazo de 72 HORAS!!!! Achei um absurdo, resolvi mandar um email que até hoje não foi respondido.

Mas liguei de novo no dia seguinte e consegui falar. A pessoa disse que me mandaria o papel por email, mas que também me enviaria pelo correio. Eu disse que só o email bastava, eu iria imprimir, recortar e pronto. Não havia essa opção, era tudo ou nada.

Ao receber o negócio por email eu não acreditei. É um papelzinho branco quadrado de uns 5x5cm, escrito em Arial ou qualquer fonte assim, que tem o número da apólice, data de vencimento e placa do carro. Qualquer pessoa no mundo pode falsificar esse negócio. Não tem logo, não tem carimbo, não tem nada. Fiquei indignada, porém nem tanto, afinal essas coisas não são mais surpresa para nós.

E assim continuamos na saga para resolver a nossa situação aqui. Estamos completamente legalizados, com renda, pagando impostos e tudo mais o que diz a lei, mas PE e Lara não podem sair do país porque ainda não têm o cartão de residência. Claro que podemos sempre mandar um email para o SEF pedindo autorização, eles vão responder autorizando, nós imprimiremos o email e passaremos por tudo aquilo de novo.

Sabemos que um dia, pode ser que eles consigam se regularizar, ou talvez não, depende de com quem iremos falar.

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