Não dá pra reviver o primeiro amor

Não sei se é assim para todo mundo, mas meu primeiro amor foi mágico. Mágico e platônico. Eu estava na quarta série, deveria ter uns 10 ou 11 anos e me apaixonei perdidamente por João Augusto (nome fictício), um coleguinha da minha sala.

Meu amor consistia em falar dele para as minhas amigas e ficar vermelha quando ele falava comigo.

João Augusto não era popular e nem era bom aluno. Ele era loirinho de olhos azuis, não gostava de estudar e nem gostava de esportes, mas desenhava divinamente bem já naquela idade. Mas o que tínhamos mesmo em comum é que nossas mães eram professoras na escola em que a gente estudava, então com frequência elas tinham que ficar após o horário e nós ficávamos esperando, só nós dois.

Eu adorava esses dias, a gente ficava no pátio da frente da escola conversando e brincando sem ninguém para atrapalhar. Brincávamos de pega pega, de quem pulava mais alto do murinho, de se esconder e dessas coisas que brincam crianças de 10 anos.

A gente nunca tinha declarado nosso amor, que eu acho que era mútuo, mas tínhamos uma relação fofa de amizade. Além dos momentos pós escola, às vezes ele ia na minha casa, de bicicleta, me levava um desenho e a gente ficava por ali.

Também tivemos alguns momentos ruins. Uma vez ele fez um bilhetinho com um coração e pediu para a professora me entregar, eu fiquei tão nervosa que acabei rasgando o bilhete e deixando João Augusto muito chateado. Em outra ocasião, nossa turma fez uma viagem para os Sete Povos das Missões (eu morava em Porto Alegre nessa época) e iríamos passar a noite, eu decidi fazer ciúmes para João Augusto e pedi para um outro amiguinho andar de mãos dadas comigo (obrigada Márcio!)… até hoje não sei qual era o objetivo dessa minha manobra, mas ela não deu em nada.

O tempo passsou, eu comecei a gostar de outros meninos, na oitava série eu me mudei para São Paulo e perdi contato com João Augusto, só guardei essas memórias com muito carinho no coração.

Anos depois, quando eu já tinha 20 e poucos anos, surgiu o Orkut, depois o Facebook e eu comecei a me reconectar com alguns amigos daquela época de colégio.

Como meu pai ainda morava em Porto Alegre, eu ia bastante para lá e acabei reencontrando várias pessoas que eram meus amigos naquele colégio, foi uma coisa maravilhosa.

Em uma dessas idas, eu não lembro exatamente como, comecei a conversar com João Augusto e combinamos de nos encontrar.

No dia marcado ele foi me buscar na casa do meu pai para passarmos o dia juntos. Ele estava igualzinho! Quando ele saiu do carro eu fiz uma viagem no tempo, ele ainda parecia aquele menino loirinho de olhos claros que tinha sido meu primeiro amor.

Entramos no carro e ele disse que me levaria para almoçar. Enquanto atravessávamos a cidade fomos colocando o papo em dia, foram muitos anos sem se falar. Percebi que ele seguiu um caminho bem diferente do meu, era artista, tocava bateria numa banda de heavy metal e não havia feito muito mais coisas da vida.

Eu, nessa época, trabalhava em RH em uma grande empresa, estava comprando meu apartamento e já tinha viajado para vários lugares dentro e fora do Brasil. Achei interessante ver como os nossos caminhos foram para lugares tão diferentes.

Depois de uma meia hora de carro ele estacionou no Habibs. Comemos umas esfihas e dividimos a conta.

Depois do almoço ele sugeriu que fôssemos para um parque e eu aceitei. Ali perto do Habibs tinha um parque grande, bem popular entre a juventude gaúcha, mas ele me levou de volta para a zona sul, para o Parque da Marinha, onde se reuniam os skatistas para fazer suas manobras e fumar sua maconha. Também achei interessante essa escolha, não fumamos maconha, mas ficamos observando o movimento e conversamos mais um pouco. Minha memória aqui está um pouco falha, mas eu acho que a gente até se beijou.

No fim da tarde ele me levou de volta à casa do meu pai e combinamos de nos ver novamente em algum momento, nada muito específico. A essas alturas eu já tinha percebido que não iria me apaixonar novamente.

A noite eu já havia combinado de sair com as minhas amigas, todas do colégio, todas haviam estudado com ele também. Contei o que tinha acontecido e elas acharam o máximo e sugeriram que eu o chamasse para a nossa baladinha da noite.

Nos decidimos por uma danceteria na Cidade Baixa e eu mandei uma mensagem pra ele avisando que estaríamos lá, ele não respondeu.

Lá pelas tantas, quando já estávamos no lugar há algum tempo, ele me mandou uma mensagem perguntando se eu poderia encontrá-lo na porta. Saí do lugar, ele tava parado na calçada. Nos cumprimentamos e ele me disse que queria muito entrar, mas que custava 5 reais e ele só tinha 3. Não soube nem o que pensar, mas paguei a entrada dele.

As meninas adoraram reencontrá-lo, ficamos todos conversando, relembrando o passado e rindo, até que ele me chamou de lado e perguntou se eu poderia comprar uma cerveja para ele. Comprei, passaram-se uns minutos ele saiu, fui procurá-lo e ele estava escondido fumando maconha, me disse que já estava indo embora.

E foi assim que o meu sonho de reviver aquele grande e mágico amor de infância acabou. Eu tento não pensar muito sobre isso, prefiro as lembranças da quarta série, quando a gente se divertia correndo pelo pátio do colégio enquanto esperávamos as nossas mães.

Foi aí que eu aprendi que tem coisas que é melhor deixar no passado mesmo, elas ficam mais bonitas por lá.

Felizmente hoje temos o Instagram e ninguém mais precisa passar por essas surpresinhas. Mas se puder, deixe seus amores antigos guardadinhos no lugar deles, você não quer perdê-los na fumaça de maconha em que eles podem estar.

7 comentários sobre “Não dá pra reviver o primeiro amor

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s