A Guiana Francesa não é a França

Essa história começa com o meu marido querendo fazer uma viagem “diferente”. Viagem diferente para a maioria das pessoas é acampar em algum lugar ou ir para uma praia remota, para ele significava conhecer a Guiana, o Suriname e a Guiana Francesa. Bom, ele ainda foi pro Monte Roraima, eu me abstive dessa parte da viagem.

Como a maioria das pessoas, a gente não fazia ideia do que ia encontrar nesses lugares, nunca nem tinha botado no Google pra ver algumas imagens, eram lugares que eu nunca tive muito interesse em visitar.

A história da viagem inteira eu conto outro dia, hoje eu quero contar mesmo é de um episódio tragicômico que aconteceu no carnaval na Guiana Francesa.

Programamos a nossa viagem de maneira que conseguíssemos passar o Madri Gras (carnaval) na Guiana Francesa, afinal de contas a França foi a origem dessa festa e a gente precisou até de um visto francês pra ir pra lá, então achamos que seria algo de outro mundo.

Pousamos no aeroporto lá pelas 2 da manhã e não tinha nenhum táxi. Mas a gente também não tinha para onde ir porque só poderíamos entrar no Airbnb às 10, então dormimos num banco que tinha lá dentro.

Lá pelas 8 conseguimos pegar um táxi e fomos para o Airbnb, mas como não podíamos entrar ainda decidimos procurar um lugar para tomar café. Bom, não sei bem como explicar, mas a Guiana Francesa é como se fosse uma filial pobre da França. A moeda é o Euro, o idioma oficial é o francês e o vinho é muito barato, mas é muito feio.

Encontramos uma padaria bem pertinho e comemos um croque monsieur com um café delicioso, porque lá todos os restaurantes são franceses.

Deu 10 horas, entramos no Airbnb. Era um estúdio bem pequenininho, em um prédio com uns 4 andares e uns 6 apartamentos por andar, estávamos no terceiro piso. Você abria a porta e já estava dentro da mini cozinha, olhava pra frente era a cama, olhava pra esquerda era o banheiro e olhava para a direita e era a sala com um varanda bem pequenina, que ficava perto da varanda do apartamento ao lado.

Saímos para passear, a cidade estava em clima de carnaval, um monte de gente fantasiada e de máscara, um monte de bêbado caído na rua e um monte de latinha de cerveja espalhada pelo chão.

Voltamos para o Airbnb para descansar e começamos a ouvir uma discussão na escada. Não entendíamos nada porque eles estavam falando francês, mas parecia um casal com uma criança discutindo muito alto, brigando e se xingando e a criança chorando. Abrimos a porta para ver se tava tudo bem, mas a mulher já tinha ido embora, o cara nos olhou feio e foi embora também.

No dia seguinte saímos para a farra. Colocamos uma máscara e fomos nos juntar aos bêbados que jogavam latinhas no chão (mentira, eu nunca jogo lixo no chão). A alegria durou umas duas horas e a festa acabou. Era um tipo de carnaval de rua em que a bandinha ia andando e os foliões iam atrás, mas o percurso era pequeno, estava chovendo e o pessoal parou logo de tocar.

Voltamos para o nosso pequeno estúdio, tomamos banho e assim que nos deitamos alguém começou a bater na nossa porta. Mas não era uma batidinha não, eram socos, a pessoa estava esmurrando a porta e gritando coisas em francês, que a gente não entendia.

Ficamos apavorados, estávamos sem telefone, apenas com a internet do quarto, na Guiana Francesa sem conhecer ninguém e sem ter pra quem pedir ajuda. Decidimos mandar uma mensagem pra dona do Airbnb, que morava em algum outro país, pra falar o que tava acontecendo. Enquanto isso a pessoa além de esmurrar começou a chutar a porta, eu já estava em pânico.

A dona do Airbnb respondeu preocupada e perguntou se a gente queria que ela chamasse a polícia. Nós dissemos que sim e ela disse que ia chamar, mas que provavelmente iria demorar um pouco porque era carnaval e eles estavam ou ocupados ou bêbados.

Aí a gente começou a pensar na possibilidade de abrir a porta para descobrir o que o cara queria. Pensamos que de repente ele estava batendo na porta errada ou só queria usar o banheiro, sei lá.

Minha primeira reação foi esconder nossos documentos. Não faço a menor ideia de porque eu achei que estaríamos mais seguros se eu colocasse nossos passaportes no pote de arroz, mas coloquei. Documentos escondidos, Paulo Eduardo foi se aproximando da porta e eu peguei uma faca de cozinha, daquelas de comer, sem ponta mesmo e me preparei.

Ao ver a cena Paulo Eduardo teve um ataque de riso (que eu acho que era de nervoso, ele diz que não) e parou antes de abrir a porta. Nisso veio um outro cara e começou a falar inglês. Ele estava tentando nos explicar que aquele homem que estava esmurrando a nossa porta há meia hora era nosso vizinho de apartamento e que ele tinha perdido a chave de casa na rua e queria pular da nossa varanda para o apartamento dele.

A explicação pareceu razoável, mas a gente não sabia quem era esse outro cara, o esmurrador estava claramente bêbado e havia um espaço razoável entre as varandas, perigoso de se pular. Mesmo que a história fosse verdadeira, e se esse homem caísse da nossa varanda e os policiais bêbados nos acusassem de alguma coisa? E se a história fosse mentira e os caras quisessem nos assaltar ou nos sequestrar? E se fosse o mesmo cara que tava brigando com a mulher, foi expulso de casa e estava querendo entrar à força?

Nisso tudo mais de uma hora já tinha se passado, o cara não dava sinais de que ia parar de bater, já tinha um monte de vizinhos reunidos do lado da nossa porta pedindo pra gente deixar o cara pular, a polícia claramente não ia aparecer e a gente já não aguentava mais aquela tensão toda, decidimos que era melhor jogar pra sorte e abrir de uma vez.

Voltamos à nossa posição de combate, Paulo Eduardo abrindo a porta, eu atrás com a faquinha de cozinha, nos demos um último olhar e ele abriu a porta. Assim que ele abriu a porta um cara magrelo de cabelo muito comprido entrou no apartamento que nem um raio, foi pra varanda e antes que a gente conseguisse segui-lo ele pulou pra varanda do lado.

Eu nem consegui me mexer, fiquei ali parada com a minha faquinha na mão tentando entender o que tava acontecendo. Quanto voltei à realidade tinham uns 10 vizinhos do lado de fora, falando coisas em francês que a gente não conseguia entender.

Fechamos a porta, mudamos nossa passagem para o dia seguinte e fomos embora daquela filial francesa o mais rápido que pudemos.

No dia seguinte, a dona do Airbnb nos avisou que a polícia estava na nossa porta. Avisamos que já estávamos no aeroporto e que não pretendíamos voltar.

E foi assim que descobrimos que a Guiana Francesa não é a França.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s