Tem rituais de cura e tem o Temazcal

Em 2012 eu tive o imenso prazer de fazer uma viagem para o México com Martina, uma amiga italiana. Havíamos nos conhecido na Austrália em 2009 e em 2012, um super casal de amigos mexicanos, que também conhecemos lá, nos convidou para seu casamento. Decidimos ir para a cerimônia e prolongar a viagem para conhecer alguns outros lugares.

Na época eu estava meio perdida, tinha voltado da Guatemala, tava sem saber o que fazer, então achei que essa viagem seria uma ótima oportunidade pra eu pensar na vida e decidir o caminho que eu iria seguir.

O casamento foi lindo, em uma cidadezinha pequena a mais ou menos uma hora da Cidade do México. A cerimônia foi muito bonita e a festança foi excelente, nos acabamos de dançar.

A turma do casamento

No dia seguinte seguimos viagem. Tínhamos um plano bem flexível, escolhemos uns 3 lugares onde a gente queria muito ir e deixamos uns dias em aberto para decidir pelo caminho.

Um dos lugares que a gente queria muito conhecer era Oaxaca. Oaxaca é uma cidade relativamente grande, em um vale ao pé de uma montanha, com uma gastronomia maravilhosa e muita cultura, tanto moderna quando muito antiga, da época dos Aztecas.

Eu achei que esse seria o lugar ideal para eu refletir sobre a minha vida, mas me enganei. No período em que estivemos lá, estava acontecendo algum tipo de manifestação, comércio fechado, uma confusão nas ruas, foi um estresse só, quase fomos embora sem conhecer a cidade.

Oaxaca
Oaxaca

Para nossa sorte, estávamos em um albergue um pouco mais afastado e uma das donas nos sugeriu fazer um temazcal, uma espécie de cura espiritual dos aztecas da qual eu nunca tinha ouvido falar, mas a Martina, muito mais culta e viajada que eu, conhecia e se animou.

Lá fomos nós, de táxi, para um lugar no meio do mato, que tanto poderia ser um retiro espiritual quanto um cativeiro. Felizmente era um retiro espiritual.

Fomos recebidas com um chazinho de ervas que, de acordo com a pessoa, era para nos preparar para o ritual. Eu não sei o que tinha naquele chá, mas com certeza eu fiquei bem mais relaxada. Após o chá fomos convidadas a entrar em uma espécie de trocador, nos pediram para tirar a roupa e nos enrolar na toalha.

Eu fiquei confusa, porque eu tava achando que esse Temazcal era um banho, até levei meu biquini. Na minha cabeça a gente ia entrar numa banheira cheia de ervas e flores e ficar ouvindo umas músicas relaxantes até nos mandarem sair, mas eu estava bem enganada.

Saímos enroladas nas toalhas e fomos levadas a uma sala escura, de parede de pedra com cheiro de umidade, parecia uma caverna. Dentro dessa sala havia uma espécie da caixa bem grande de pedra, acho que deveria ter 1,30 de altura por uns 2,5 de largura e comprimento. Fiquei extremamente nervosa quando vi aquela caixa, eu tenho uma certa claustrofobia e não estava preparada para entrar naquilo. Nos pediram para não tirar fotos.

Infelizmente aquele era o Temazcal. Nos pediram para entrar na caixa e nos sentar ao fundo. Não conseguíamos ficar em pé, o teto era bem baixo, então entramos engatinhando, desviando de um tipo de buraco com fogo que tinha no chão e nos sentamos lá no fundo.

Não demorou muito e uma senhora, com um cabelo que ia até o chão e uma roupa muito colorida entrou na caixa com a gente, sentou-se ao lado do fogo, fechou a porta e, sem nem olhar para nós, começou a entoar umas canções em um idioma que eu não reconheci.

Aquilo começou a me dar uma falta de ar, parecia uma sauna seca com cheiro de fumaça e muito escura, comecei a ter um ataque de ansiedade e pedir pra sair. A mulher demorou pra me responder e eu já tava quase na porta quando ela disse que tudo bem, que ela deixaria um vão da porta aberto e assim o fez.

Consegui respirar um pouco melhor, ainda não estava relaxada e muito menos pensando sobre a vida, mas estava curiosa pra ver onde aquilo ia dar, então decidi continuar.

Ficamos uns 15 minutos lá sentadas, no escuro, com a mulher cantando e tacando ervas no fogo, o que fazia subir um cheiro de alecrim defumado horrível, mas seguimos. Passados esse 15 minutos essa mulher pegou um ramo com galhos e flores que estava no chão e começou a nos bater. Ela nos batia e cantava cada vez mais alto.

A gente tava ali pelada, dentro de uma caixa de pedra cheia de fumaça, apanhando com uns galhos pelo corpo inteiro, eu imediatamente pensei que aquilo tinha que me trazer a iluminação, ninguém faria isso a toa.

Nem sei quanto tempo a gente ficou ali apanhando, sei que meu corpo já estava amortecido e eu comecei a ter um ataque de riso de tão surreal que era aquela situação. Quando eu comecei a rir a mulher parou de nos bater, abriu a porta e nos mandou sair. Eu não sei se ela espera todo mundo começar a rir para acabar o ritual ou se ela ficou puta e decidiu encerrar, de qualquer forma eu fiquei aliviada.

Os tatames para massagem

Saindo dali nos levaram para uns tatames no chão e recebemos uma massagem, essa sim relaxante e agradável. Durante a massagem eu tive muitas ideias do que iria fazer com a minha vida, saí com um checklist mental.

Nunca fiz nada do que eu imaginei naquela massagem, às vezes eu penso até que tava sonhando e não pensando conscientemente porque eram coisas que eu nunca tive vontade de fazer. Não me senti curada, relaxada ou iluminada, mas faria tudo de novo, só pra ter essa história pra contar.

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