Pode me chamar de princesa

Porque eu namorei um príncipe. Bom, talvez namorar seja um pouco sério demais para o tipo de relacionamento que nós tínhamos, considerando que nunca conversamos sobre exclusividade. E príncipe… bem, ele era um príncipe, mas como ele era árabe e praticamente todo homem que nasce na Arábia Saudita é príncipe, digamos que ele era um príncipe classe média (classe média que na Arábia Saudita significa mais rico que todos os ricos do Brasil).

Mas a história é verdadeira e, tecnicamente, pode-se dizer que eu namorei um príncipe, então deixa eu começar do começo.

Logo que eu mudei pra Austrália, em 2009, eu fui morar em uma casa bem grande, que tinha 4 quartos, um quintalzão, uma salona e uma cozinha legal. A dona da casa, uma tcheca refugiada que havia ido para a Austrália há muitos anos, morava no andar de cima (que eu nunca cheguei a ver) e alugava a parte debaixo para estudantes.

Casa vista de fora

Sala de jantar e cozinha

Matt

Louis no quintal de casa, sempre sem camisa

Quando eu mudei para lá, além de mim moravam um alemão muito legal chamado Matt, um menino da Nova Caledônia chamado Louis que cultivava maconha no armário e um árabe bem introvertido chamado Sam (na verdade o nome dela era algo tipo Samrfgoafhajfgo, mas a gente chamava ele de Sam).

Todos eram muito legais, a gente se deu bem logo de cara e começamos a organizar várias festinhas em casa, das quais a dona da casa muitas vezes participava. O Matt era bartender de um pub local então ficava responsável pelas bebidas, eu conhecia muita gente então era responsável pelos convidados, o Louis era responsável pela maconha e por andar sem camisa independente da temperatura e o Sam por comprar um monte de comidas e bebidas chiques e desnecessárias porque ele era muito rico. Era um esquema peculiar, mas que funcionava muito bem.

De todos da casa, eu era mais próxima do Matt, ele se tornou um grande amigo, começou a sair com a minha amiga Paulina (aquela que se apaixonou pelo piloto de helicóptero e a gente fazia várias coisas juntos. Mas para minha surpresa, um dia o Sam me convidou para sair, mais especificamente para ir a um jogo de futebol americano ou rugby (que eu não sei diferenciar) em um fim-de-semana. Eu fiquei surpresa, mas já queria conhecer o estádio e aceitei.

Fomos no tal do jogo, foi super divertido, eu não entendi nada, para mim era só um monte de homem de shorts apertado se amontoando no campo, mas a gente conversou e deu muita risada.

Sam e eu no jogo

Um pouco depois desse dia, a dona da casa chamou o Matt, o Louis e eu para dizer que o Sam havia ido embora de madrugada. Ela não falou muita coisa, não falou pra onde ele foi, porque saiu correndo e porque nem se despediu. A gente achou aquilo super estranho, mas a mulher era estranha e o Sam era meio misterioso, então deixamos pra lá. Dias depois um outro árabe mudou para o quarto do Sam, o Ahmed.

Isso tudo deve ter acontecido lá por outubro. Nunca mais ouvimos falar do Sam. Naquela época redes sociais nem eram tão populares, a gente seguiu a vida e eu comecei a sair com um Bósnio chamado Tibor.

Em dezembro eu fui fazer uma viagem de carro com dois amigos. O plano era percorrer uns 2000km de Brisbane até Cairns e voltar alguns dias antes do meu aniversário de 30 anos (que é no dia 20) para nos prepararmos para a mega festa que o pessoal estava organizando. Era uma festa semi surpresa, eu sabia que ela ia acontecer, mas eles não me contavam absolutamente nada do que estavam planejando.

Lá pelo dia 18, eu estava na fila do supermercado comprando meu Vegemite (mentira, eu detesto esse negócio) quando chegou uma mensagem de um número desconhecido. Era o Sam, dizendo que tinha voltado para a Austrália (de onde eu nem sabia que ele tinha saído), que estava morando em Surfers Paradise, que é uma praia a mais ou menos 1 hora de Brisbane e que queria me ver. Convidei ele pra minha festa semi surpresa de aniversário, que eu não sabia onde seria, mas falei que a Paulina mandaria uma mensagem com os detalhes e ele disse que iria com certeza.

Chegou o aniversário, meus amigos organizaram uma festa maravilhosa, em uma casa com piscina, tava tudo perfeito. O Sam foi um dos primeiros a chegar. Agora lembrem-se que eu só tinha saído com ele uma vez e não ouvia falar dele há mais de dois meses, então a gente não se conhecia tanto assim. Mas ele chegou com um presentinho e foi logo se enturmando com o pessoal, o que muito me surpreendeu porque ele parecia ser meio tímido.

Lá pelas tantas chegou o Bósnio, com quem eu estava saindo, mas meio num esquema de amizade. Torta de climão, mas vou deixar essa história para outro dia, o foco aqui é o príncipe.

Sam, eu e Tibor, nem sei como essa foto foi tirada

A festa foi numa sexta-feira, foi até de madrugada e foi perfeita. Sam ficou até o final e na hora de ir embora ele perguntou se eu queria passar o fim-de-semana na casa dele. Naquele tempo eu era uma pessoa espontânea, impulsiva e sem compromissos familiares, fui sem pensar duas vezes. Passamos na minha casa para eu pegar umas roupas e fomos para Surfers Paradise.

Chegando lá meu quase inexistente queixo caiu no chão. Ele morava em um dos andares mais altos do prédio mais alto da cidade. O apartamento devia ter uns 200m2 e tinha vista panorâmica para a praia, sim PANORÂMICA, o apartamento era inteiro cercado de janelas de vidro, era coisa de cinema.

Vendo minha reação ele começou a me contar sobre a vida e a família dele e foi aí que eu descobri que ele era um príncipe. Resumindo tudo, ele era o mais novo de uma família de oito irmãos. Todos os outros já eram casados e estavam pelo mundo, enquanto ele estava estudando na Austrália. Por ser o mais novo, era obrigação dele cuidar dos pais, então depois dos estudos ele teria que voltar para a Arábia Saudita e morar no palácio de 10 quartos e 8 banheiros onde os pais moravam sozinhos, apenas acompanhados de uma equipe de “auxiliares do lar”. Ele me mostrou fotos da casa, da família e até de seu esporte favorito, acampar no deserto para caçar animais usando falcões, sim, isso existe.

Ele também me contou que, quando voltasse para casa, ele teria um casamento arranjado com alguma prima distante que ele provavelmente só iria conhecer dias antes da cerimônia e que essa seria sua primeira esposa, mas que as outras ele mesmo poderia escolher, sim, isso existe. Me contou que o pai dele tinha 4 esposas e que eles podiam ter muitas esposas desde que tivessem condições de sustentar todas e tratassem todas da mesma maneira. Pois é minha gente, isso existe.

Passamos esse finde nesse apartamento maravilhoso dele. Foi uma coisa meio de conto de fadas e ele se comportava como um príncipe de desenho animado moderno. E foi aí que começou nosso romance.

Agora vejam vocês, eu sabia que não era algo de longo prazo, afinal se eu quisesse casar com ele eu teria que me mudar para a Arábia Saudita e ser, no mínimo, a segunda esposa e isso era algo que não estava nos meus planos naquele momento. Outra complicação é que ele era muçulmano bastante praticamente (apesar de que tinham muitas exceções, mas enfim…) e se eu quisesse algo mais sério teria que me converter, o que também não estava nos meus planos. E por fim, se eu aceitasse as duas primeiras situações, ainda teria que mudar para o palácio e passar a minha vida cuidando dos pais dele, o que definitivamente não estava nos planos.

Então era muito óbvio que aquilo ali não iria pra frente. Mas o meu fascínio por aquele mundo em que ele vivia era tão grande que eu decidi continuar saindo com ele. Nem sei dizer se eu estava apaixonada por ele ou pelo fato de que eu tava meio que num conto de fadas muito maluco do qual eu não queria sair.

Como ele morava na Gold Coast e eu em Brisbane e nós dois estávamos estudando, a gente não se via com tanta frequência. Durante a semana era muito difícil e de fim-de-semana às vezes a gente tinha outros compromissos e acabava não se encontrando, mas quando a gente se encontrava eu sempre descobria uma maluquice nova sobre aquele mundo em que ele vivia.

Lá por agosto (a gente tinha começado a sair em dezembro), ele me disse que ia fazer uma viagem de carro com um casal de amigos para o deserto e queria que eu fosse. Claro que ele tinha um carrão 4×4 e todos os melhores equipamentos de viagem e que eu não precisaria de nada além de roupas. Fiquei bem dividida, por um lado ia ser uma super aventura, mas por outro eu ia estar no meio do deserto com duas pessoas que eu não conhecia e um cara que, apesar de ser muito legal, tinha um estilo de vida meio estranho. E obviamente que eu ainda perderia duas semanas de aula. Pensei muito e decidi não ir.

Ele foi, me mandou fotos da viagem e tudo, mas umas duas semanas depois que eles voltaram ele simplesmente sumiu. Desapareceu do mapa. Ghosting total. Bloqueou meu telefone, excluiu as redes sociais e puf, foi-se. Eu não posso dizer que fiquei muito triste porque nessa época eu já tinha meio que engatado um outro relacionamento com um Croata e ainda tava saindo com o Bósnio (só paz, sem guerra) e já não tava assim mais tão animada com o Árabe, mas fiquei puta, com o ego ferido.

Inicialmente eu achei que ele tinha ficado bravo que eu não quis viajar com ele, mas depois eu descobri o que aconteceu e digamos que fez todo o sentido. A mãe dele ficou doente e como ele seria o responsável por cuidar dos pais, teve que voltar para o seu palácio. Estando na Arábia Saudita a família decidiu que era melhor que ele se casasse de uma vez e, em menos de um mês ele estava casado com a tal prima distante que ele não conhecia. Estando casado ele não poderia mais ter contato com outras mulheres, por isso me apagou da vida dele assim de repente. Também fiquei sabendo que quando a mãe melhorou ele voltou para a Austrália com a esposa para terminar a faculdade.

Se fosse qualquer outra pessoa eu teria ficado puta com essa história e teria dado um jeito de falar com ele, ia ter discurso, textão e barraco. Mas a minha história com esse príncipe foi tão surreal que eu achei que esse foi o encerramento perfeito para o meu conto de fadas. O fim que todas essas histórias de princesa deveriam ter. O princípe desaparece, deixa a princesa em paz e ela conhece uma pessoa muito melhor e é feliz para sempre.

Meu conto de fadas da vida real

Mas se você fizer questão, pode me chamar de princesa, porque esse título vai ser pra sempre meu.

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