Toda mulher já sofreu sexismo no ambiente de trabalho

Se você leu o título e pensou “eu não”, você é do grupo que nunca passou por uma situação explícita de machismo, mas acredite, você já sofreu com isso sim.

Algumas situações são explícitas, como quando um homem muito menos preparado que você é promovido, quando seu chefe faz piadinhas machistas e todo mundo ri, quando a maior parte dos executivos e líderes da empresa é homem, quando eles não te deixam falar em uma reunião e até mesmo roubam suas ideias.

Mas existem situações muito mais sutis, que passam despercebidas, mas acontecem em todos os lugares. Te dou alguns exemplos:

A Universidade de Harvard fez um experimento sobre sexismo nos processos de seleção. Eles enviaram currículos idênticos para várias empresas, em alguns eles colocaram nomes de mulher e em outros nomes de homem, adivinha o que aconteceu? Isso mesmo, os currículos com nomes masculinos foram chamados para mais entrevistas do que os com nomes femininos. O conteúdo dos currículos era exatamente igual.

O que esse estudo indicou é que as empresas têm a tendência de priorizar a contratação de homens para funções que são consideradas “mais masculinas” como tecnologia e engenharia, principalmente se forem cargos de liderança, enquanto que em funções “mais femininas” ou de hierarquia mais baixa, essa diferença diminuiu.

Outro estudo mostrou que certas palavras, quando colocadas em descrições de vagas, atraem mais homens do que mulheres para aquela posição. Por exemplo, “analisar e determinado” são palavras que atraem mais candidatos homens, enquanto que “dar suporte e colaborar” atraem mais mulheres. Infelizmente as palavras “mais masculinas” são comumente usadas nas descrições das vagas de cargos mais altos, enquanto que as palavras “mais femininas” nas das vagas de entrada e de cargos mais baixo.

O sexismo velado na hora de definir o candidato também é muito comum. Trabalhando em RH para grandes multinacionais, foram incontáveis as vezes em que um gestor me disse “para essa posição eu prefiro um homem porque as mulheres são muito emocionais”.

Se tem uma coisa que me tira do sério é essa mentira amplamente perpetuada de que as mulheres são mais emocionais. Vamos aos fatos: Apesar dos dados não serem muito completos, aproximadamente 70% dos crimes passionais no Brasil são cometidos por homens. Crimes passionais são aqueles motivados por ciúmes, sentimento de posse e defesa da honra por exemplo. Quer algo mais emocional que isso? Setenta por cento desses crimes emocionais são cometidos por homens.

Essa mentira de que as mulheres são mais emocionais no mundo corporativo vêm mais ou menos da mesma ideia que atribui adjetivos como colaborativa às mulheres e determinado à homens. Quando uma mulher perde a paciência e têm uma reação emocional no trabalho dizem que ela está de TPM ou que não sabe se controlar. Quando um homem tem a mesma reação, dizem que ele já estava no limite, que ele precisa ser agressivo para conseguir realizar seu trabalho.

Da minha experiência, esses “homens agressivos” são vistos como líderes competentes, enquanto que as “mulheres agressivas” são vistas como desequilibradas. Já vi líderes homens mandarem os funcionários a merda e isso ser tratado como uma brincadeira. Nunca vi uma mulher mandar um funcionário a merda.

Eu tive um chefe uma vez que era assim. Ele tinha duas mulheres e dois homens no seu time. Eu ainda era inexperiente e estava no começo da minha carreira, então não sabia muito bem como lidar com ele. Por diversas vezes ele me pediu para preparar uma apresentação e depois apresentou como sendo dele, a única vez que eu disse para alguém que a apresentação era minha ele me colocou em uma sala e gritou comigo por 15 minutos sobre como ele era o chefe e eu tinha que obedecê-lo. Depois de alguns meses acabei pedindo demissão porque ele marcou uma reunião para me dizer que ele não conseguia mais trabalhar comigo porque ele sabia que eu tinha falado mal dele para não sei quem (o que nem era verdade). Ele falava alto e apontava o dedo para as pessoas de cargo mais baixo nos corredores da empresa, mas nunca na frente de seus superiores. Esse cara era extremamente emocional, tinha essas explosões ridículas e um ego gigante. Ninguém nunca falou nada, era um comportamento aceito.

E mais ou menos nessa linha, outra forma de sexismo muito comum é quando as mulheres sentem que elas precisam “agir como homens” para serem respeitadas. Isso significa falar palavrão, tratar mal as pessoas, liderar de forma agressiva, mostrar para os funcionários que ela é “mais macho que muito homem”.

Eu já tive um momento assim, em que eu achei que o único jeito de eu ser respeitada era sendo mais dura e agressiva com as pessoas. Nem preciso dizer que não deu certo, porque nada daria certo. O problema não é o comportamento da mulher, é o machismo que existe nos corredores dos ambientes de trabalho.

Último caso que eu quero citar é o que aconteceu com o algoritmo do sistema de seleção da Amazon. Eles criaram esse algoritmo em 2014 e o que ele fazia era pré-selecionar currículos para as vagas de acordo com os perfis que mais se aproximavam daqueles dos profissionais que tinham bom desempenho dentro da Amazon. Por exemplo, para uma vaga de Gerente de Logística o algoritmo pegava as informações dos gerentes de logística que tinham o melhor desempenho e triavam os currículos com base nas características daquelas pessoas.

Em 2015 a Amazon percebeu que o algoritmo estava selecionando uma quantidade muito maior de currículos de homens do que de mulheres para as vagas de liderança, sabem por que? Porque a Amazon tinha muito mais homens do que mulheres nessas posições, então o algoritmo coletava mais dados de homens e por consequência selecionava mais homens para as entrevistas.

A grande questão do sexismo nas empresas é que ele é estrutural, não é uma empresa ou um homem que tem esse comportamento, são todos e nós mulheres também. Isso já está tão enraizado que muitas vezes nós mesmas reforçamos esse comportamento.

Dizer coisas como “mulheres trabalham melhor em equipe” ou “eu prefiro ter um chefe homem” só faz com que o sexismo estrutural se perpetue. Nem todas as mulheres trabalham melhor em equipe, nem todos os chefes homens são melhores.

Precisamos tratar as pessoas como indivíduos e não como grupos. E precisamos chamar a atenção sempre que notarmos algum comportamento que reforce o sexismo. Infelizmente ele não vai acabar sozinho, tanto homens quanto mulheres precisam combate-lo e criar esse movimento de mudança de cultura nos ambientes corporativos, que permita que indivíduos sejam vistos como tal.

Links para os estudos citados no artigo

https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/21381851/

https://hbswk.hbs.edu/item/when-gender-discrimination-is-not-about-gender

https://www.google.pt/amp/s/mobile.reuters.com/article/amp/idUSKCN1MK08G

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s