Saudade do que não aconteceu

Desde que eu comecei a escrever esse blog e relembrar várias histórias de viagem, do trabalho e da vida em geral, que eu tenho me sentido muito nostálgica. Pensando em como seria minha vida se eu ainda vivesse na Austrália ou na Guatemala, se não tivesse me casado, se não fosse mãe. Se continuasse viajando sem parar, pulando de empresa em empresa, saindo com amigos e bebendo durante o dia nos fins de semana.

Claro que grande parte disse se deve à pandemia e a esse confinamento maluco que eu (e muitos de vocês) estou vivendo. Desde março de 2020 que, fora meu marido e minha filha, eu me encontrei socialmente com 5 pessoas. CINCO pessoas. Mais ou menos UMA pessoa a cada três meses. Todo mundo nessa situação enlouquece um pouco. E lembrar de todas essas coisas obviamente me faz imaginar como seria minha vida se eu tivesse feito escolhas diferentes.

Mas ontem, quando estávamos almoçando com um casal de amigos (finalmente!), surgiu uma conversa sobre quais as primeiras memórias que cada um tinha. Eu comecei a pensar na minha e a verdade é que eu não sei. Minha mãe e meu pai me contam muitas histórias da minha infância, então eu não sei se as memórias que eu tenho são minhas ou se são histórias que eles me contaram, eu ilustrei na minha cabeça e agora elas parecem memórias.

Isso me fez lembrar de algo que eu li em algum lugar que eu não lembro onde (irônico, não?), que dizia que quando a gente não lembra muito bem de algo a nossa imaginação completa os espaços que faltam para nós, então muito do que nós lembramos, na verdade, é muito mais algo que imaginamos que aconteceu do que algo que realmente aconteceu.

Há uns dois anos, quando eu estava passando uns dias na casa da minha mãe no Brasil eu peguei um diário meu de 1995 e vi uma história que aconteceu comigo que é muito famosa, do dia que eu perdi minha saia (um dia eu conto essa história aqui). Mas o meu diário falava bem pouco desse dia e eu me lembrava dele com muitos detalhes. Então resolvi mandar uma mensagem para um amigo meu que estava lá nesse dia para relembrar com ele e dar risada de tudo, mas a história que ele me contou era muito diferente da que eu lembrava, aparentemente muitos dos detalhes que eu lembrava haviam sido criados pela minha imaginação.

Tem também a memória emocional, aquele sentimento que a gente lembra que tinha quando alguma coisa aconteceu. Essa também nos engana. Quando eu comecei a escrever aqui sobre a Guatemala eu me lembrei de como eu me sentia durante os episódios que eu narrei, e os sentimentos eram muito claros para mim. Mas eu achei o blog que eu escrevia quando estava lá e, lendo os posts sobre os mesmos episódios, eu me sentia muito diferente do que eu lembrava.

Tudo isso me fez pensar em como as minhas memórias daqueles bons tempos são distorcidas e muito influenciadas pelo que eu gostaria que fosse.

E é claro que, se hoje eu voltasse para qualquer um desses meus “bons tempos”, eles já não seriam os mesmos, porque eu não sou a mesma. Imaginar que se eu voltar para a Austrália hoje a minha vida seria como era em 2010 é divertido, mas não é real.

Com essa loucura em que a gente está vivendo está muito fácil questionar nossas escolhas, se arrepender de coisas, imaginar que nossa vida poderia ser diferente, mas voltar ao passado não é a solução. A vida pode ser diferente se a gente quiser, dependendo das escolhas que a gente faz hoje, não de mudar as escolhas que a gente já fez. E isso não é uma dica de auto-ajuda, é um lembrete para mim mesma, que ando pensando muito em como seria minha vida se…

E em relação à minha primeira memória, talvez a primeira que eu tenha que é realmente minha seja essa: quando eu era bem pequena, dos 2 aos 4 anos mais ou menos, minha mãe ia trabalhar, me deixava na creche e meu vô e minha vó iam me buscar. Um dia quando eu estava chegando em casa de mãos dadas com a minha vó, ela abriu o portão da casa dela e esmagou um rato que estava tentando passar ali por baixo. A parte do rato não é legal, mas a de estar de mãos dadas com a minha vó é. Eu acho que essa é uma memória porque, que eu me lembre, não tinham testemunhas, ninguém mais viu. E asssim eu sigo, com mais uma certeza que eu nunca vou ter.

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