Reconhecimento: Sim ou Não?

Que pergunta besta é essa? Você deve estar pensando. Mas me escute (ou leia) e conversamos novamente lá no final.

Outro dia eu vi um post no Instagram, de um desses perfis de maternidade, que dizia que não é saudável falar “parabéns”, “muito bem”, “bom trabalho” e coisas assim quando as crianças realizam tarefas ou fazem algo novo, pois isso cria nelas a ideia de que elas precisam atender às nossas expectativas. Ao invés disso podemos dizer coisas como “você trabalhou muito para isso” ou “você deve estar muito orgulhosa do que você fez”.

Achei um pouco demais. Eu faço de tudo para ser uma boa mãe e criar uma filha sem muitos traumas e muito feliz, mas tem coisas que eu acho que ultrapassam os limites e essa foi uma delas.

Mas hoje, quando depois de muito tempo eu peguei 40 minutos de estrada, eu me lembrei de um fato que aconteceu comigo quando eu ainda era estagiária de RH, lá pelo ano 2000.

Eu trabalhava em uma empresa super legal que reconhecia muito seus funcionários. Na época eu tinha feito um projeto que teve um resultado muito bom e a minha chefe (maravilhosa) queria me reconhecer, mas como estagiária eu não podia receber dinheiro, então ela me deu um quadro de imã que ela sabia que eu queria muito.

Eu fiquei muito feliz, contei pros meus pais e para os meus avós. O meu avô ficou tão orgulhoso que contou para o mundo inteiro que eu tinha ganhado o prêmio de funcionária do mês (o que não era verdade, mas foi a forma como ele interpretou).

A partir daí eu comecei a me esforçar muito mais e ganhar muitos outros reconhecimentos. Na minha longa carreira de RH eu acredito que em 90% das minhas avaliações de desempenho eu tenha tido uma nota acima da média. Ganhei prêmios, viagens, bônus e mais um monte de coisas por projetos que eu ia realizando.

Quando eu me candidatei a uma vaga nos Estados Unidos, a pessoa que seria minha chefe lá me contratou baseada em todos esses reconhecimentos e excelentes avaliações de desempenho. Ela me contratou para trabalhar com HR Analytics, algo que eu nunca tinha feito na minha vida, mas ela disse que sabia do meu potencial.

Cheguei lá e passei semanas no Google tentando aprender tudo sobre o assunto. E aprendi muito. Comecei criando planilhas e dashboards e logo já estava criando algorítimos e modelos estatísticos. Apresentei em muitas reuniões de executivos e muitos desses executivos me chamavam para explicar para eles os cálculos que eles tinham feito.

Todas as minhas avaliações lá foram acima da média e eu ganhei vários bônus. Isso tudo para mim era surpreendente porque eu sempre me sentia inferior aos meus colegas. Achava que eu não merecia tudo aquilo porque meu inglês não era perfeito, porque eu não sabia estatística avançada, e várias outras coisas. Eu continuava estudando e tentando aprender o máximo de coisas possível, mas nunca me senti boa o suficiente (mas podemos falar sobre a síndrome da impostora outro dia).

Voltemos para hoje, quando eu estava dirigindo. Lembrei do quadro azul que eu ganhei lá no meu estágio e de todos os outros reconhecimentos que eu recebi nas empresas. Da alegria que eu senti quando meus pais, amigos, chefes, colegas de trabalho diziam que estavam muito orgulhosos de mim, de tudo que eu tinha conquistado. E me veio o insight – todos esses reconhecimentos não necessariamente me faziam feliz, o que me fazia feliz era saber que outras pessoas estavam orgulhosas de mim, que outras pessoas achavam que eu estava fazendo um bom trabalho.

Quem leu meus outros texto sabe que eu já não era feliz em RH há muitos anos, mas as outras pessoas achavam que eu estava fazendo um bom trabalho e isso me motivava a continuar. Mais uma vez eu entendi que eu estava trabalhando para atender às expectativas dos outros, não às minhas.

O post sobre maternidade começou a fazer um pouco mais de sentido. Eu não quero nunca que a minha filha ache que ela precisa fazer qualquer coisa para atender às minhas expectativas (ou de qualquer outra pessoa), quero que ela faça por ela.

Não estou criticando meus pais (ou pais em geral), meus chefes, amigos ou colegas de trabalho, mas estou refletindo sobre como esses reconhecimentos todos me cegaram para a minha verdade, para o fato de que aqueles trabalhos não me faziam feliz.

Não acho que reconhecimentos devam acabar, todos queremos e precisamos ser reconhecidos. Para dizer a verdade eu nem sei exatamente o que eu acho. Mas eu gostaria muito de dar à minha filha e à outras pessoas a possibilidade de enxergar além dos reconhecimentos, talvez de elas mesma se reconhecerem por aquilo que é importante para elas.

E se você chegou até aqui, concordando ou discordando de mim, espero que você tenha conseguido refletir sobre o que é expectativa sua e o que é dos outros, porque descobrir essa chavinha vai te dar uma liberdade que você não imaginava que poderia ter.

2 comentários sobre “Reconhecimento: Sim ou Não?

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