Pequenas Transgressões

Dando continuidade a esse meu momento de auto descobrimento e após a minha sessão de terapia de ontem, eu comecei a pensar se eu sou mais uma pessoa que segue a regras e “faz o que deve ser feito” ou se eu gosto de questionar essas regras e, com isso ou para isso, cometer pequenas transgressões.

Fiquei pensando nisso e acabei lembrando de alguns momentos em que eu decidi viver pelas minhas próprias regras. Claro que sem desrespeitar a liberdade e os direitos dos outros, e por isso estou chamando de pequenas transgressões.

A primeira de que se tem notícia vem de uma história que a minha mãe adora contar. Quando eu tinha uns 2 anos e estava na creche Aldeia do Chorinho, em Moema – São Paulo, eu mordi um coleguinha porque ele não quis me dar um pedaço da banana que ele tinha levado de lanche. Será que aos dois anos eu tinha um sangue comunista? Ou será que tem a ver com o meu histórico familiar anarquista? Para quem não sabe, meu bisavô foi da Itália para o Brasil e fundou, junto com seus companheiros, a primeira colônia anarquista, chamada Colônia Cecília. Fato esse que é relatado por Zélia Gattai (que era prima do meu avô) no livro Anarquistas Graças a Deus.

O segundo episódio que me vem à mente também é contado pela minha mãe, mas desse eu tenho uma vaga memória. Aos 4 ou 5 anos minha mãe me colocou para fazer ballet. Quem me conhece hoje provavelmente não consegue me imaginar fazendo nenhum tipo de dança, mas naquele tempo ainda estávamos experimentando. No final do ano a professora organizou uma apresentação de ballet da nossa turma, que seria baseada no Sítio do Pica Pau Amarelo. Para a surpresa de ninguém, todas as meninas queriam ser a Emília, mas eu decidi que eu queria ser a Dona Benta. E não só fui irredutível como ainda levei uma amiguinha comigo, o que causou uma revolução na turminha e estragou os planos da professora. Tempos depois fui convidada a me retirar por não ter a disciplina necessária para o ballet.

Também na onda de não ter disciplina suficiente, fui convidada a me retirar da ginástica olímpica, mais ou menos aos 8 anos. A professora queria que a gente dedurasse as colegas que não estavam fazendo os exercícios corretamente, mas eu me recusei. Ela me convidou a sair, alegando que eu estava ficando muito grande para o esporte. Eu não era a maior da turma e as outras não foram convidadas a se retirar.

Mais pra frente um pouco acho que na sétima série, com uns 12 anos, eu era representante de turma no colégio Santa Teresa de Jesus em Porto Alegre, onde eu estudava e minha mãe era professora (e morria de vergonha das confusões que eu criava), as freiras (era um colégio de freiras) pediram para a gente escolher um lugar para a nossa viagem anual, mas a nossa turma não conseguiu chegar em um consenso a tempo e as freiras decidiram então que a gente não iria viajar. Ao sermos informados decidimos organizar um protesto, sentamos todos com as pernas esticadas no corredor em frente à sala dos professores, metade de cada lado, e cada professor tinha que pular nossas pernas para passar, não saímos dali até as freiras nos ouvirem. Acabamos viajando para Gramado. 🙂

Nossa turminha em Gramado

Na oitava série eu já havia mudado para SP e estudava em um colégio chamado Maria Montessori, onde só durei um ano. Esse colégio era terrível, eu odiava, mas era uma ótima aluna. Sempre fui CDF, fazer o que? Um dia, durante uma aula de matemática (que era horrível porque o professor era péssimo) a coordenadora entrou na sala para fazer um discurso sobre como ninguém estudava e todo mundo tinha ido mal na prova. Lá pelas tantas ela me pediu para levantar e disse algo como “vocês deviam ser como a Dina, que só tira nota boa”. Na hora me baixou um espírito justiceiro e eu dei meu próprio discurso sobre como era totalmente inapropriado ela me expor desse jeito e comparar os outros comigo, que isso não era o papel de uma escola decente e por aí vai. Não fui convidada a me retirar, mas digamos que no ano seguinte eu mudei de escola.

Lá pelo segundo colegial, com 15 anos, os meus pais me fizeram aquela famosa oferta da classe média paulista, para comemorar você quer uma viagem ou uma festa? Eu quis uma viagem, mas não quis aquela viagem para a Disney com a Tia Augusta, como todo mundo. Quis ir para a Inglaterra, estudar inglês, meio sozinha, meio com a minha amiga Carol.

Turminha do inglês em Bath na Inglaterra

A faculdade foi um momento difícil para mim. Fiz FAAP, onde todo mundo era filho de banqueiros, políticos ou pessoas muito ricas. Tive que me adaptar. Fazia pequenos atos de rebeldia, mas foram 4 anos em que eu tentava me ajustar para não ficar sozinha. Apesar de que eu conheci muita gente legal por lá, por quem eu ainda tenho muito carinho.

Turma da faculdade

Aí a coisa começou a degringolar, eu entrei no mercado de trabalho e comecei a aceitar que as coisas são como são. Fiz coisas legais, criei projetos meio “fora do comum”, mas pelo que eu me lembro cometi muito poucas transgressões, talvez alguns poucos desses pequenos atos de rebeldia. Mas no geral, me conformei, no sentido de que me tornei “um deles”.

Mas a vida me deu outra chance e em 2009 a GE Money, onde eu trabalhava, foi vendida para o BMG e eu decidi que era a hora de “desconformar”. Ao invés de procurar outro emprego fui estudar na Austrália.

Tão engraçada a palavra conformar. Me lembra muito forma, entrar na forma como se fosse um bolo, pra ficar naquele formatinho desejado. Um dos significados que eu achei diz “aceitar a demanda dos vencedores” (dicionário online de português). Que vencedores são esses? Quem determina qual é a forma certa? Mas voltando…

Na Austrália eu transgredi. Transgredi muito. Talvez porque na Austrália eu não tinha essa “forma”, eu não sabia quais eram exatamente as regras e aí criei as minhas próprias regras. Não estou falando de leis, estou falando de regras sociais que são criadas e a gente nem sabe de onde vêm e pra onde vão, a gente só segue.

Meu aniversário de 30 anos na Austrália. Eu saía com esses dois caras e os dois acabaram aparecendo na festa…

Um dos exemplos é que eu fui trabalhar de garçonete. Depois de anos de experiência em RH, de muito potencial pra ganhar mais dinheiro fazendo isso, eu decidi que naquele momento eu seria garçonete. E fui, e fui muito feliz, trabalhei em estádio, em velório, em festa de gente chique, em reunião de pais da escola e até em uma padaria. Não me preocupei com o que iam pensar ou o que eu ia fazer depois. Fui uma garçonete feliz.

Pronta para o trabalho!

Também fiz muitas viagens e muitas pequenas transgressões nessas viagens, lembram da história do helicóptero em Fiji? (para ler a história clique aqui).

Saindo da Austrália fui para a Guatemala. Outra transgressão eu diria. Afinal, quem termina um mestrado na Austrália e vai trabalhar em uma pequena ONG no interior da Guatemala?

Subindo um vulcão na Guatemala

Mas depois disso voltei a me “conformar”. Voltei ao mercado de trabalho, voltei a trabalhar em RH, comprei roupinhas de trabalho e sapatos de salto. Fui transferida para os Estados Unidos e me conformei com tudo por lá também. Novamente cometi pequenos atos de rebeldia aqui e ali, mas sempre dentro dos moldes corporativos, nada de grande significância para mim ou para o mundo.

Agora estou aqui, refletindo sobre tudo e decidida a não me conformar novamente. Quero ser aquela pessoa que transgride, que não aceita as coisas só porque elas são como elas são, que pula para fora do forma e leva outros consigo, que vê um mundo cheio de possibilidades e não um lugar de um caminho só.

Não sei onde isso vai dar, mas aguardem, porque quando eu descobrir eu vou levar vocês comigo!

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