Pelo menos a escova de dentes eu não perdi

Essa é a história de uma viagem de 2008 que os meus amigos Debora e Bruno (que são irmãos) me convenceram a fazer. Fomos fazer a trilha inca de Cusco até Machu Picchu. Por que não pegar o trem direto a Machu Picchu? Pergunta à Debora e ao Bruno.

Eu não sou famosa pela minha familiaridade e tolerância à animais selvagens, insetos e qualquer outra coisa relacionada a ficar dias no meio do mato, também não sou conhecida pela minha disposição para andar longas distâncias em terrenos irregulares, ou andar em geral, mas esses dois falaram tantas maravilhas dessa viagem e viajar com eles é sempre tão bom que eu acabei indo.

Nós três em um dos albergues que a gente ficou

Deixa eu apresentar os dois porque a personalidade deles é muito importante para essa história.

O Bruno estudou comigo no colegial. Ele é a pessoa de mais bom coração e paciência que eu conheço, além do que, tem uma inteligência espacial que eu nunca vi na vida, ele dá uma olhada em um mapa e já sabe exatamente onde e como ir e nunca erra.

A Debora é irmã do Bruno, mas nós ficamos amigas por causa de uns ex-namorados nossos que eram amigos entre si. Debora é o MacGyver versão feminina, resolve qualquer problema com os recursos que tem na mão, sabe tudo de camping e é muito engraçada, mas não tem o mesmo bom coração e muito menos a paciência do irmão.

Já eu, né… aquela coisa… odeio barata, tenho pavor de animais não domesticados, fico confusa pra abrir uma cadeira de praia, me perco na rua da minha casa, tenho preguiça de andar três quadras até a padaria e, o que é muito importante para a história, não tomo banho gelado nem no verão.

Nós três fomos de São Paulo a Lima e depois fomos para Cusco, de lá saímos para procurar uma excursão para Machu Picchu pela trilha Inca. Turistas não podem fazer a trilha sem um guia local, mas existem várias empresas em Cusco que têm os guias e são sempre pequenos grupos. Escolhemos uma que pareceu boa e era em espanhol como queríamos, fechamos com eles e voltamos para o hostel para descansar e nos preparar para o dia seguinte.

Não tem muito para falar do hostel, além do fato de que tinha uma cabeça no teto do banheiro.

Nada demais…

Saímos no outro dia cedo e fomos encontrar o grupo. Pegamos um ônibus até a entrada da trilha e lá fomos conhecer nossos companheiros de viagem. Nosso guia era peruano, claro, e além de nós três tinham mais três amigos, um cubano, um peruano e um americano.

Logo na apresentação o guia perguntou se a gente falava inglês porque o americano não falava espanhol. Ficamos putos e dissemos que não. A gente tinha escolhido um grupo em espanhol justamente para não ter que falar inglês. Mas depois de algumas horas com o guia tendo que falar tudo nos dois idiomas nós dissemos que falávamos inglês e seguimos viagem.

Nossa turma

A trilha dura três dias e no quarto dia logo cedo você chega em Machu Picchu. O segundo dia é conhecido como o pior, pois é o mais longo e de subidas super íngremes. Logo no começo da trilha eles avisam que na nossa frente irá um grupo de porters, que são os carregadores que levam as barracas, comidas e coisas para o grupo e, caso alguém não queira levar sua mochila pode pagar para eles levarem. Nem vou me extender nessa parte, depois de 3 horas de caminhada eu tive que pagar alguém pra levar minhas coisas porque eu mal estava conseguindo andar. Debora e Bruno permaneceram fortes.

Eu enquanto ainda carregava minhas coisas

Chegamos no nosso primeiro ponto de acampamento, era uma barraca para duas pessoas, então eu fiquei com a Debora e o Bruno acabou ficando com o peruano.

Esse primeiro acampamento foi muito tenso para mim. Eu vou no banheiro duas ou três vezes a noite e o banheiro era meio longinho (mas pelo menos tinha um). Fiquei um pouco tensa, ensaiei o caminho algumas vezes antes de escurecer e fomos dormir. Quando estávamos já dentro da barraca, alguma coisa começou a bater em um dos lados, meio que se apoiar. Eu já entrei em pânico, já achei que tinha alguém querendo invadir a barraca e que era o nosso fim. Mas Debora, corajosa como sempre, botou a cabeça para fora e descobriu que era apenas uma ovelha manca.

Fiquei mais tranquila, mas o nervoso me deu vontade de fazer xixi. Convenci a Debora a ir comigo, mas quando íamos sair percebemos que a ovelha tinha deitado na frente da porta. Houve muita conversa, planos e afins, mas eu decidi que não seria a última vez que eu precisaria fazer xixi e acabei fazendo numa sacola de supermercado mesmo, essa e mais umas duas vezes. Quando acordamos a ovelha não estava mais lá.

Esqueci de contar, mas antes de dormir ainda tomamos banho com lenços umedecidos e escovamos os dentes em um riacho que tinha lá perto.

A caminhada seguiu no dia seguinte e eu já queria voltar. Não nasci pra andar e muito menos ficar subindo escadas de pedra. Mas fui me distraindo com as vistas maravilhosas e as ruínas que tinham pelo caminho e consegui chegar ao próximo ponto de acampamento sem maiores sofrimentos. Choveu e fez muito frio, mas a gente estava preparado.

Chegamos no ponto mais alto e começamos a descer. Depois de 8 horas andando chegamos no acampamento. Os porters sempre chegavam antes e organizavam tudo, quando chegávamos a comida já estava pronta e era surpreendentemente boa.

Esse segundo acampamento era perto de um rio e o guia nos deu a opção de tomar um banho se quisessemos. Estava todo mundo suado e fedido, mas nós três não conseguimos, era uma água de montanha gelada, mas muito gelada. Continuamos nos lenços umedecidos mesmo.

Nessa noite choveu muito, mas muito e as barracas começaram a alagar. A minha e da Debora ficou relativamente bem, as coisas ficaram um pouco úmidas, mas nada demais. Mas a barraca do Bruno alagou, quer dizer, alagou só a metade do peruano, que ficou muito puto. A gente morreu de rir porque ele era muito chato, achamos que foi tipo karma inca.

O terceiro dia é muito legal, tem muitas ruínas e umas vistas maravilhosas.

Não sei porquê a gente estava com mania de fazer essa pose de Karatê Kid

Nesse terceiro dia a gente dorme em um local que é tipo um albergue, onde tem umas camas e chuveiros, finalmente conseguimos tomar banho e uma cerveja gelada. Nesse lugar ficam todos os grupos que estão fazendo a trilha então conhecemos várias pessoas legais durante a cervejinha.

Mas a alegria dura pouco porque as 4 da manhã começa a caminhada final, pra chegar em Machu Picchu.

Chegamos!!!!

O mais legal de fazer a trilha é que você chega em Machu Picchu algumas horas antes do parque abrir para o pessoal que vem de trem, então dá pra ver tudo vazio, antes da inundação de turistas.

Fui perseguida por essa lhama

A foto clássica

E pra mim essa viagem foi uma conquista, nunca mais eu quis fazer uma caminhada dessas na minha vida, mas fiquei muito orgulhosa de ter chegado. Fiquei fedida, cansada, dolorida, toda picada de mosquitos, mas posso dizer que fiz a trilha Inca e cheguei a Machu Picchu.

E no fim, quando fomos nos despedir dos nossos companheiros de caminhada, estávamos lembrando algumas histórias do caminho e o cubano, sem motivo algum, resolveu nos contar que tinha perdido a escova de dentes no primeiro dia! Pelo menos a escova de dentes eu não perdi.

3 comentários sobre “Pelo menos a escova de dentes eu não perdi

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