A vida em Panajachel, Guatemala (Guate parte 2)

Depois do meu post sobre a Guatemala algumas pessoas me perguntaram como era a minha vida por lá, então eu decidi contar um pouco do que aconteceia. Ajudou muito eu ter achado o blog que eu escrevia naquela época, me trouxe várias lembranças boas (se você tiver curiosidade de ver o blog, clique aqui).

Panajachel, a cidade em que eu morei, é um vilarejo de mais ou menos 30 mil habitantes. Lá vivem muitos maias, guatemaltecos brancos (descendentes dos espanhóis) e muitos americanos aposentados, normalmente hippies, afinal dificilmente um CEO de uma grande empresa americana vai se adaptar a um lugar onde falta luz várias vezes na semana.

Por ser turístico, Panajachel tem bons restaurantes, alguns hotéis e um comércio relativamente grande. Mas por ser voltado para o turismo, não existem lojas de roupa, de móveis, grandes supermercados nem nada disso, quem mora lá ou comprar coisas usadas ou vai até a capital onde tem um Walmart e outras facilidades.

Mercado municipal, onde eu comprava frutas e legumes

Lá também não tem hospitais, tem um ou dois médicos que atendem em seus consultórios, mas para casos de emergência os pacientes precisam ser levados a uma cidade próxima. Isso causa vários problemas, porque só existe uma entrada para chegar em Panajachel, por uma estradinha que, com frequência, fica bloqueada por causa de acidentes ou deslizamentos de terra, muito comuns na época de chuva.

Panajachel lá embaixo, na beira do lago
Única estrada para entrar na cidade

Ah sim, na Guatemala só existem duas estações, a de chuva, de Junho a Outubro e a de seca, de Novembro a Maio. Na estação de chuvas chove todos os dias, normalmente o dia inteiro. Isso causa alagamentos, deslizamentos de terra, quedas constantes de energia e muito mofo. Na época de seca não chove nunca.

Aquela ponte quase submersa era a que eu atravessava para ir para o trabalho antes da estação de chuvas
Cidade alagada
Eu estava tentando salvar algumas coisas de dentro dessa casa que alagou, todo mundo da ONG foi fazer a mesma coisa em algum lugar

Minha rotina durante a semana era sempre igual (talvez por isso chame rotina). Eu acordava umas 8 da manhã, tomava café e ia andando até a ONG. Começava a trabalhar as 9h, ao meio dia eu ia para casa almoçar, voltava às 13h e às 17h saía do trabalho. Normalmente o pessoal da ONG (os estrangeiros) se reunia depois do trabalho para jantar, tomar um drink ou bater um papo em algum lugar, que poderia ser um bar, um restaurante, um carrinho de pupusas (um prato salvadorenho maravilhoso) ou na casa de alguém.

Carrinho de pupusas
Comendo pupusa
Happy Hour no Pana Rock Cafe, um dos bares da cidade, com Mayerlin e Elizabeth

Aos finais de semana era sempre uma coisa diferente. Eu viajava para algum lugar ali perto, passava o dia no único hotel da cidade que tinha piscina, fazia algum curso tipo tecelagem ou culinária, ficava pela cidade passeando com a turminha e de vez em quando até ficava em casa. Sexta e sábado a noite sempre tinha festa em algum lugar. Muitas vezes na minha casa, que era grande e meio isolada ou nos bares onde sempre tinha trivia night, festa de reggaeton, noite da salsa, noite de tequila, música ao vivo e vários outros eventos, mais voltados para os turistas, mas claro que a gente participava de tudo.

Nadando no lago com Elizabeth
Sendo entrevistada por uma rede de tv local
O hotel com piscina
Aula de tecelagem
Festinha em casa
Girl´s night out no Circus Bar, a pizzaria da cidade
Passando o dia em um hotel num vilarejo vizinho
Trivia night

Minha vida social em Panajachel era muito intensa, porque os meus colegas da ONG eram a minha família lá e a gente estava sempre junto. Todo mundo tinha saído dos seus países (normalmente Estados Unidos) para morar e trabalhar lá por um período, sem família e sem amigos e, nessas situações, as pessoas ficam mais abertas a conhecer e se aproximar de outros, por isso formamos um grande grupo de amigos que sempre ia se renovando, porque muitos iam embora e muitos outros chegavam.

A dona da ONG não queria que a gente se relacionasse socialmente com os maias que trabalhavam na ONG pois eles têm uma cultura muito diferente em que as mulheres não podiam sair com a gente, mas os homens podiam, mesmo os casados. A gente respeitava e nunca os convidava, mesmo quando eles se ofereciam.

Outra coisa que nos unia muito era o trabalho. A gente lidava com situações tão, mas tão difíceis e doloridas durante o dia, que a noite a gente precisava de compania para rir, relaxar e não pensar naquele sofrimento todo.

Eu não sei se hoje eu conseguiria viver dessa maneira novamente, mas estar me reencontrando com essa experiência tem me ajudado a chegar mais perto de descobrir para onde eu vou e quem eu sou, porque eu acho que na Guatemala eu consegui ser eu mesma, sem nenhuma interferência ou cobrança externa.

Reli o meu blog da Guatemala ontem e vou deixar aqui uma passagem que eu escrevi que me fez me lembrar porque eu fui e porque eu quero voltar, não fisicamente, mas voltar a ter a coragem que eu tinha quando fui para lá.

Confesso que foi preciso coragem para renunciar à possibilidade de ganhar dinheiro, voltar pro meu apartamento, estar perto dos meus amigos e da minha família e levar uma vida normal, mas eu não estava feliz aqui e não seria feliz voltando para essa mesma vida. Não posso garantir que eu vou ser feliz agora, mas estou muito contente de estar tentando.

O que eu sinto nesse momento não é medo, é muito mais uma curiosidade e ansiedade de não saber absolutamente nada do que está por vir. Medo mesmo eu sinto de me acomodar, aceitar o que todo mundo me diz, que ninguém nunca consegue ser plenamente feliz, que a gente precisa se contentar com o que tem e coisas assim. Medo dá quando eu penso na rotina, no trânsito, nas multidões e no quanto a gente aceita tudo isso como se fosse normal viver assim. Bom, se isso é ser normal então eu nasci no planeta errado :)”

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