O Uno Mile, o barranco e o bar

Lá pelo ano 2000, quando eu ainda não tinha desenvolvido completamente o meu bom senso, decidi fazer uma viagem com a minha tia Karina e duas amigas dela, Lívia e Pi. Tia Karina é a irmã mais nova do meu pai e tem apenas 3 anos a mais que eu.

Importante lembrar que no ano 2000 a internet ainda não era algo comum nas residências, então era difícil pesquisar os lugares como fazemos hoje. Dito isso, tia Karina me disse que tinha ouvido falar de uma praia chamada Camburi do Norte e sugeriu que a gente passasse o ano novo lá.

Não confunda Camburí do Norte com Camburí, porque essas duas praias não poderiam ser mais diferentes. Enquanto Camburí é uma praia grande, com estrutura, cheia de casas, hotéis e restaurantes, Camburí do Norte é, ou pelo menos era naquela época, um pedacinho de praia entre Ubatuba e Trindade sem hotel, sem casas e com dois ou três bares.

Em Camburí do Norte se acampava na praia, quer dizer, até tinha um camping, mas a gente decidiu que era muito mais legal acampar na praia mesmo. Nós quatro não éramos grandes conhecedoras da natureza ou praticantes de camping, mas conseguimos uma barraca emprestada (dormiríamos juntas), compramos um monte de enlatados, bolachas, salgadinhos e afins, escolhemos algumas roupas de praia e cada uma levou um moletom para o caso de fazer um friozinho a noite.

Eu era a única que tinha carro, um Uno Mile que eu havia ganhado do meu avô, então encontrei as três em Mogi das Cruzes, onde minha elas moravam e começamos nossa viagem no dia 30 de dezembro. Paramos em um posto para abastecer e, por coincidência, conhecemos uma turma que também estava indo para lá. O rapaz que puxou assunto se chamava Roberval, tinha uma kombi e ele e os amigos também passariam o ano novo em Camburí do Norte. Ficamos felizes de já fazer uma primeira conexão.

Depois de umas 3 horas e pouco de viagem chegamos no quilômetro zero da Rio Santos, onde nos haviam dito que ficava a entrada para Camburí do Norte. Lembrem-se que naquela época não havia waze (nem smartphones). Paramos o carro no acostamento para tentar achar a entrada quando vimos um carro entrando em uma estradinha que mal se via, cercada de mato, achamos que podia ser ali. Pegamos a entradinha e depois de uns 100 metros começou uma decida doida, um barranco quase vertical, de terra. Meu Uno Mile aguentou firme e conseguimos chegar na praia.

Já haviam muitos carros e de cara vimos Roberval e sua kombi. Ele nos viu e nos disse que a praia ia encher, então era para escolhermos logo um lugar para montar acampamento. Escolhemos um lugar mais ou menos perto da entrada, na praia. Começamos a montar a barraca e conseguimos, depois de algumas horas. Quando terminamos, olhamos para o lado e vimos que as pessoas estavam muito mais preparadas, haviam trazido lonas para cobrir as barracas, fogareiros, churrasqueiras e várias outras coisas. Mas a gente estava feliz em passar 3 dias comendo bolacha, fandangos e brigadeiro de lata.

Saímos andando pela praia e achamos um “bar” quase atrás de onde estavam o carro e a barraca, pedimos uma cerveja quando, muito de repente, começou a cair um pé d´água, daqueles de lavar a alma. Nós quatro estávamos super animadas, demos muita risada, dançamos na chuva, rolamos na areia, aquela alegria.

O “bar” visto da nossa barraca

Passados uns cinco minutos, um casal que tinha montado acampamento do nosso lado nos disse “aquela ali não é a barraca de vocês?”. Olhamos para o lado e vimos nossa barraca passando como um barco pela nossa frente. Foi uma comoção geral, saímos correndo e gritando, o pessoal que tava na praia agarrou a barraca, uma outra galera ajudou a gente a puxar ela de volta, mas era tarde, nossas roupas todas tinham ficado encharcadas. Não sei porque motivo decidimos tirar as roupas do carro e guardar na barraca, não fazia sentido, mas fizemos.

Já estava ficando escuro e a praia não tinha eletricidade, a gente não tinha roupa e nem onde dormir, então decidimos que a melhor opção era dormir no carro. Entramos as quatro, mais as roupas molhadas, mais as comidas, dentro do Uno Mile. Para a surpresa de todas, não ficou confortável.

Eu tentando deitar no Uno Mile com as nossas coisas

Com pena de nós, o casal vizinho nos deixou usar o toldo deles para tentar secar nossas roupas e a barraca. E nós decidimos que era melhor não dormir naquela noite, fomos para o “bar”. Digo “bar” porque era tipo um quiosque com bancos e mesas na frente e um toldo por cima, mas pelo menos dava pra fugir da chuva e tava super cheio de gente jovem e cheia de energia.

Nesse dia conhecemos o Caipira, que era morador do local, mas também estava passando a noite no bar porque, de acordo com ele, a casa em que ele morava ficava no alto da cachoeira e ele estava comendo que a casa descesse.

O Caipira, a Lívia e eu, no bar

Ficamos ali até amanhecer, quando a chuva deu uma trégua voltamos para o carro para ver a situação das nossas coisas. Tudo molhado, exatamente como no dia interior. Aí a brincadeira começou a perder a graça e decidimos que era melhor ir embora e passar o ano novo em Cruzeiro mesmo, onde mora minha família (e não estava tão longe). Como era dia 31 de Dezembro, achamos que o trânsito de volta estaria ok se saíssemos bem cedinho. Botamos as tralhas dentro do carro e fomos. O carro não subia o barranco. A terra tinha virado lama, o carro atolou algumas vezes, Roberval nos ajudou a desatolar, mas quando começou a subida mais íngreme o carro não subia.

Voltamos, estacionamos no mesmo lugar e, avaliando todas as opções, decidimos voltar para o bar. Não parava de chover, era um negócio impressionante. Até então só tínhamos comido fandangos e brigadeiro de colher, então fomos ver o que eles serviam no bar. Pastel, só serviam pastel. Procuramos nos outros dois bares da praia e eles também só serviam pastel. Para a supresa de niguém, comemos pastel.

Ficamos no bar tomando cerveja o dia todo, conhecemos todo mundo, comemos muito pastel, mas a noite foi chegando e a gente queria se arrumar para o ano novo. Fomos ver onde ficavam os chuveiros. Para a nossa surpresa, e só nossa, não tinham chuveiros, o banho era no rio. Não fosse a cerveja a gente não teria tomado aquele banho, mas fomos. O esquema era nervoso. Você tinha que ficar na parte mais rasa do rio, porque nos disseram que era mais fácil de fugir caso aparecesse alguma coisa (nem quero pensar que coisa poderia aparecer ali). Então a gente deitava de biquini meio que boiando na beira do rio, passava o sabonete, virava de frente, dava uma limpada geral e saía. O problema é que continuava chovendo, então a pessoa do lado de fora te entregava uma toalha molhada, o que não fazia diferença já que a roupa que a gente ia colocar depois também estava molhada.

Tia Karina, eu e Lívia preparando para o banho

Saindo do banho fomos jantar o nosso pastel e nos preparamos para a balada de ano novo, o que significa que pedimos mais uma cerveja. Lá pelas 9 da noite todo mundo da praia foi se dirigindo para o forró que tinha do outro lado do rio (a praia tem um rio de cada lado). Fomos seguindo o fluxo e chegamos no tal do forró, que era basicamente a sala de estar de uma casa que também não tinha eletricidade e portanto, funcionava com um gerador.

Como não poderia deixar de ser, pouco antes da meia noite, acabou o combustível do gerador e simplesmente não tinha o que fazer, ficou tudo escuro e sem música. Voltamos todos para a praia, e nós voltamos para o bar, que já havia se tornado nossa casa.

Lívia, Pi, tia Karina e eu comemorando a virada do ano

Passamos a virada do ano ali mesmo, com aqueles que já haviam se tornado nossos amigos de infância, o Caipira e o Envolvido. O Caipira você já conhece e o Envolvido era chamado assim porque ele queria tirar fotos envolvido, o que significa abraçado na linguagem dele. Ambos também estavam vivendo naquele mesmo bar.

Pi, Caipira, eu, Lívia e o Envolvido (de boné), no bar
Pi, Livia e Tia Karina, no bar

No dia seguinte a praia começou a esvaziar, pouco a pouco as pessoas iam arrumando suas coisas e indo embora. Mas a chuva não passava e não tinha a menor chance de o Uno Mile subir. Fomos ficando.

No dia 2 a chuva deu uma trégua e, apesar de ainda não conseguirmos ir embora, algumas roupas já haviam secado e nós conseguimos fazer um passeio para a cachoeira. De longe conseguimos avistar a casa do Caipira, que não havia descido como ele temia.

No dia 3 de Janeiro finalmente a lama secou e o heróico Uno Mile conseguiu subir o barranco. Mas voltamos com um membro da turma a menos. Lívia decidiu que ficaria mais uns dias acampada com o Caipira, na nossa barraca que havia secado, e voltaria de ônibus quando desse vontade. Fomos as outras três embora, mas não sem antes deixar um dinheiro com a Lívia, que já não tinha mais nada e não teria como voltar.

Não sei que fim levou a Lívia, mas tia Karina me disse que ela eventualmente voltou e está bem.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s