Não fale com estranhos

Foi a primeira coisa que nos disseram quando contamos que estávamos indo para a Índia. Não que seja perigoso, mas eles vão mentir para vocês, foi o que ouvimos de muitas pessoas. Também nos disseram para sempre carregar uma Lonely Planet (guia turístico) e confiar só no que estava escrito lá. Além de vários conselhos sobre higiene. Entendemos, concordamos e nos preparamos para o pior. Mas o pior era muito pior.

Paulina e eu nos formamos nos nossos respectivos mestrados no final de 2010, e no começo de 2011 decidimos viajar pela Índia e Nepal, antes de voltarmos para nossos países, ela Chile e eu Brasil.

Nos preparamos da melhor maneira possível, conversamos com todo mundo que já tinha ido pra lá, fizemos mil anotações, levamos remédio para tudo e fomos.

Chegando no aeroporto de Delhi, a capital, pegamos o táxi oficial, como nos haviam ensinado e pedimos para que ele nos levasse a uma certa região onde ficam vários hotéis. Não tínhamos feito reserva, nos disseram que era melhor olhar primeiro os lugares antes de fechar com um. Descemos do táxi, pegamos nossas mochilas e fomos em busca de um lugar para ficar. Como já estávamos cansadas combinamos que ficaríamos no primeiro hotel que parecesse razoável.

Estávamos fazendo um mochilão, não tínhamos dinheiro para ficar em hotéis de rede ou aqueles mais famosos, a ideia era ficarmos em alguns mais simples, tipo hostel. A primeira coisa que aprendemos é que se você não pergunta algo diretamente, eles não te dizem. Entramos em um hotel e perguntamos se tinha banheiro e eles disseram que sim, fomos ver e o banheiro era fora do quarto. No seguinte perguntamos se tinha camas separadas, disseram que sim, fomos ver e uma das camas era um colchonete no chão. No terceiro perguntamos se tinha banheiro no quarto e camas iguais e separadas, disseram que sim. Aí fizemos a pergunta final, se tinha água quente para o banho, o cara falou que tinha. Entramos e o quarto era grande, tinha duas camas e banheiro no quarto, decidimos ficar.

Desarrumamos as malas, deitamos um pouco para descansar e decidimos tomar banho e sair para comer. Quando fomos ligar o chuveiro, não tinha água quente. Ligamos na recepção e o cara falou “já estou indo”. Chegou minutos depois com um balde de água quente. E era isso, o hotel tinha água quente para o banho, só não era no chuveiro. Aí já era tarde demais e tomamos nosso primeiro banho de canequinha, primeiro de muitos.

Nosso hotel era esse branco atrás da Paulina

No dia seguinte, um domingo, acordamos cedo e saímos para comprar passagens de trem para Agra, onde fica o Taj Mahal. Ficaríamos mais uns dias em Delhi, mas nos disseram para comprar com antecedência.

Saímos o hotel com a nossa Lonely Planet na mão, que nos dizia para comprar as passagens na própria estação de trem, que não estava longe. Andamos menos de cinco minutos e um rapaz nos abordou, estava de mochila e cheio de livros, parecia estudante. Puxou papo, perguntou se a gente precisava de ajuda, perguntamos onde era a estação e ele disse que nos levaria, chamou um tuk tuk e entramos. Paramos na frente de uma agência de turismo e ele nos disse que aquele era o melhor lugar pra comprar, mais seguro. Ficamos putas que ele nos enganou e pegamos um tuk tuk até a estação de trem. Na porta da estação outra pessoa nos abordou, disse que era ali mesmo que comprava a passagem, mas que de domingo estava fechado, mas que ia nos ajudar. Chamou um tuk tuk, entramos e fomos parar em outra agência de turismo. Já putas por termos nos deixado enganar duas vezes, voltamos pra estação, empurramos todo mundo que aparecia na nossa frente e conseguimos comprar a passagem.

Delhi
Delhi
Delhi
Tuk tuk

Decidimos comer em algum lugar porque estávamos já há tempos com fome. Como se pode ver pelas fotos, Delhi é uma cidade bastante bagunçada, não é fácil achar um restaurante. Mas achamos um que parecia mais ou menos turístico e entramos, seria nossa primeira refeição ali.

Aconteceu o que nos aconteceria muitas, mas muitas vezes depois. A gente faz o pedido, o garçom anota e vai embora, aí ele volta com um prato só. Quando perguntamos pelo prato da outra o garçom diz que não tem. Nunca, em toda a viagem, pudemos entender porque eles não diziam isso na hora que pedíamos, mas depois de algumas vezes aprendemos a perguntar se tinha aquele prato naquele momento.

O outro grande problema frequente que enfrentávamos no restaurante era a pimenta. A gente sempre pedia sem pimenta e o prato sempre vinha muito, mas muito apimentado. Como não tinha outra opção, a gente comia chorando, mas comia. Talheres as vezes não tinha, mas isso não incomodava.

Saindo do restaurante andamos mais um pouco e as pessoas começaram a pedir para tirar foto com a gente, porque no meio deles a gente se destacava demais. Isso acabou virando uma constante e várias vezes mulheres jogaram bebês no nosso colo para a gente tirar foto e até autógrafo chegaram a pedir.

Foto com uma família

Paulina dando autógrafo

No fim do dia pegamos um tuk tuk para voltar para o hotel e o cara do tuk tuk nos levou para outro lugar, disse que era pra gente visitar aquele templo. Ficamos putas, descemos sem pagar e ele ficou nos xingando. Pegamos outro tuk tuk e esse nos levou para o hotel, mas deu uma volta gigantesca para nos cobrar mais.

No dia seguinte logo cedo, voltamos para a estação de trem e adiantamos nossa passagem para Agra, não dava mais para ficar em Delhi.

E como bem disse minha amiga Paulina, parece que explodiu uma bomba ali e esqueceram de limpar, é caótico e claustrofóbico demais.

Encantador de serpentes
Mictório público

Pegamos o trem pra sair às pressas de Delhi e conseguimos chegar em Agra sem maiores problemas.

Chegando no Taj Mahal um cara se ofereceu para tirar uma foto nossa, aceitamos porque até então a gente não tinha nenhuma foto juntas, ele tirou a foto e depois se recusou a devolver a câmera até que a gente lhe desse dinheiro. Mais tarde descobrimos que essa é uma prática muito comum.

Paulina e eu em frente ao Taj Mahal

E pode ter certeza que não importa o quanto você leia, estude e aprenda, nada te prepara para a Índia. Nada. Mas se puder, não fale com estranhos.

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