Voluntárias no Nepal

Depois de passarmos um mês viajando pela Índia, Paulina e eu fomos passar mais um mês no Nepal, fazendo trabalho voluntário.

A ONG que nos acolheu é fantástica, chama Nepal Orphans Home. A gente foi em 2011, não sei se ainda funciona da mesma forma hoje, o que eu vou contar foi da época em que a gente esteve lá.

Já tínhamos entrado em contato com a ONG e pagamos um valor pelo trabalho voluntário, que na verdade é um valor para cobrir todas as despesas que eles tiveram com a gente e mais uma ajuda para a ONG, nada mais justo. Eles foram nos buscar no aeroporto de Kathmandu e nos levaram para a sede deles, onde ficamos mais ou menos uns cinco dias. Nesses cinco dias eles nos levaram para conhecer os principais pontos turísticos e não turísticos da cidade e discutiram com a gente as opções de voluntariado que tínhamos.

Isso nós achamos muito legal, eles nos deram várias opções do que poderíamos fazer, em diferentes lugares, cada opção com suas vantagens e desvantagens. Ficamos em dúvida entre duas, ajudar os monges com as tarefas do dia a dia em um monastério que ficava no alto de uma montanha no interior do país ou ensinar inglês em uma escola pública em uma pequena vila também no interior do país. Acabamos optando pela segunda quando descobrimos que para chegar no monastério teríamos que caminhar 3 dias montanha acima, no frio de Janeiro/ Fevereiro.

O nosso voluntariado seria então em uma vilazinha bem pequena, imagino que de umas 50 casas, no interior do Nepal. Ficaríamos alojados na casa de uma das irmãs de um dos funcionários da ONG e iríamos ensinar inglês por quase 1 mês para as crianças da escola pública do local. Quando eles nos explicaram tudo isso, a gente não fazia ideia do que nos esperava.

No dia marcado fomos até a rodoviária e um dos funcionários da ONG entrou conosco no ônibus, ele iria nos acompanhar até lá. O ônibus era daqueles de filme mesmo, que carrega gente, galinha, cabra e outros animais, não tinha o vidro do parabrisa (simplesmente não tinha) e o motorista dirigia como um louco por estradas perigosíssimas beirando precipícios. E essa viagem de ônibus durou 12 horas. DOZE horas.

Chegamos em uma cidadezinha por volta das 6 da tarde, mas achamos até que parecia bem maior do que eles nos haviam dito. Mas a viagem não tinha acabado, o rapaz nos disse que ainda tínhamos mais uns 30 minutos até o nosso vilarejo em uma daquelas bicicletas com bancos de passageiro que são super comuns por lá. Fomos.

Chegamos exaustas na casa que iria nos receber. O funcionário nos apresentou para a dona da casa e nos explicou que ela falava poucas palavras de inglês. Na casa também moravam o marido, um cunhado, a sogra e os três filhos (7 e 5 anos e uma bebê de 9 meses), mas o marido estava trabalhando em outro local bem distante e não voltaria para casa naquele mês, coisa que descobrimos ser bem comum naquela região.

Mais tarde descobrimos que ela era cega de um olho porque o primeiro marido havia jogado ácido na cara dela por algum motivo besta. Ela teve sorte que conseguiu se separar e casar de novo, muitas não têm.

Eu com a dona da casa e os três filhos

A casa era toda feita de barro e tinha o teto de palha. Era como se fossem duas casas iguais, uma na frente da outra, com um pátio no meio. De um lado tinha a cozinha que também era o quarto da sogra e um quartinho para as duas cabras da família. Do outro lado tinha o quarto onde dormiam a mãe, as crianças e o cunhado, o nosso quarto e mais um quartinho meio aberto onde ficavam as duas vacas que eles tinham. Atrás da casa tinha uma plantação onde eles cultivavam trigo e algumas outras coisas e meio do lado das cabras tinha um banheiro adaptado. Digo adaptado porque eles fizeram uma construção em volta do buraco no chão para os voluntários, porque o banheiro normal ali é só um buraco no chão, sem privacidade nenhuma. O banho era ao ar livre mesmo, água de poço.

Cozinha à direita e quarto das cabras à esquerda

Frente da casa
Banheiro

Na primeira noite estávamos tão cansadas que fomos direto dormir. Tínhamos levado nossos sacos de dormir, deitamos e só acordamos no dia seguinte. Só aí fomos ver que o nosso quarto era o lugar onde eles estocavam o trigo que eles colhiam. Dias depois viemos a descobrir que esse trigo atrai ratos e que os barulhinhos que a gente ouvia a noite e achava que era alguém andando pela rua, eram na verdade os ratinhos circulando pelo nosso quarto (nem vou falar muito sobre isso que até hoje eu não sei como eu consegui continuar dormindo ali).

Nosso quarto
Nosso quarto

Não vou fazer uma narração dia a dia do que aconteceu porque senão esse post vai virar um livro. Mas logo descobrimos que tudo por lá era muito “natural”, circulava muito pouco dinheiro no vilarejo, as pessoas trocavam alimentos, leite, chá e acumulavam pouquíssimas coisas materiais, o que a gente via nas casas que conhecemos era somente o necessário para sobreviver como cobertas, panelas, facas e roupas. Eles tinham eletricidade durante 6 horas por dia, mas essas horas eram aleatórias e não necessariamente consecutivas, portanto eles não podiam contar com nenhum eletrodoméstico.

A parte da comida para a gente foi um pouco difícil, porque além de eles não comerem carne (na época eu ainda comia), tinha pouquíssima variedade, na maior parte dos dias a comida era arroz, curry de couve flor e roti (o pão deles) feito na hora, no almoço e na janta. Em algumas ocasiões tinha lentilha e algum outro legume, mas no geral era isso. E a casa não tinha móveis como uma mesa ou um balcão de cozinha, era tudo feito no chão mesmo, no chão de terra batida, por isso eles não comiam alimentos crus.

A cozinha
Essa mulher era incrível, ela fazia tudo sozinha e dava conta de tudo!
Preparando os pratos
Os utensílios de cozinha
O outro lado da cozinha, onde dormia a sogra (de sari azul)

Os primeiros dois dias foram difíceis, mas logo fomos criando uma rotina. A gente acordava cedo, umas 5 horas da manhã, junto com o resto da casa, pegava a bebê e saía para passear pela vilazinha. As crianças faziam a lição de casa nesse horário, então às vezes a gente parava para ajudar. Depois disso íamos para a escola para dar a nossa “aula”, voltávamos, almoçávamos com a família, ajudávamos em algumas tarefas domésticas e íamos andar um pouco mais longe, pelos vilarejos vizinhos ou ficávamos brincando com as crianças na casa e tentando conversar. Voltávamos para jantar e íamos dormir super cedo, porque escurecia cedo e não tinha mais o que fazer.

De manhã as pessoas faziam fogueira na frente das casas e se reúniam para conversar e se esquentar.
Crianças fazendo lição de casa
Todo mundo parava para conversar com a gente, apesar de ninguém falar inglês

A escola nos surpreendeu. Apesar de não termos visto muito, percebemos que era uma disciplina estilo militar, que não parecia ter muito a ver com a vida naquele vilarejo. As crianças chegavam de manhã, faziam fila, cantavam o hino e esperavam os professores passarem verificando os uniformes e as unhas, e batiam na mão das crianças que não estivessem limpas e arrumadas da maneira esperada.

As crianças eram maravilhosas, curiosas e adoravam as brincadeiras que a gente inventava com elas. Tanto a ONG (e a escola) quanto nós, sabíamos que aquele voluntariado de ensinar inglês era muito mais um intercâmbio cultural para eles e para nós do que uma aula. A gente nem tinha capacidade pra ensinar inglês e nem eles para aprender em um mês com duas voluntárias. Eles já tinham inglês na escola e falavam algumas poucas palavras, já era suficiente para a gente se entender.

Por muitas vezes durante esse mês nós ficamos contando os dias para ir embora, alguns momentos foram difíceis dormindo com ratos, comendo todo dia a mesma comida, sem conseguir se comunicar direito, indo ao banheiro em um buraco, tomando banho a céu aberto (quando a gente tomava, foram muitos dias sem banho, muitos) e vivendo uma vida que era tão distante da nossa realidade que às vezes a gente se perguntava se aquilo era real.

Mas o que a gente viu ali foi algo que eu nunca imaginei viver. Uma sociedade que nós, pessoas da “civilização” chamaríamos de “primitiva”. Não havia dinheiro, eletrodomésticos, contato com o mundo exterior e nenhum dos confortos que a gente tem aqui. Mas as pessoas pareciam felizes, livres. Elas tinham tempo para conversar, para rir, para estarem presentes nas atividades que estavam fazendo, sem distrações. As crianças estavam sempre brincando e rindo, sempre na casa do vizinho ou brincando com um filhotinho de cabra ou algo assim. Muitas vezes a gente se perguntou se eles eram mais felizes do que nós. Nunca achamos uma resposta.

Provavelmente hoje eu não faria isso novamente, acho que não tenho mais o pique de 10 anos atrás e não tenho mais a liberdade que eu tinha naquela época. Mas foi uma das melhores experiências da minha vida e, às vezes, eu ainda me pergunto se eles eram mais felizes do que nós. Não sei se as coisas mudaram muito, mas eu quase tive um desmaio mês passado quando o filho mais velho, que agora tem 17 ou 18 anos, me adicionou no Facebook!

E se você tiver a oportunidade de viver uma experiência assim, não pense duas vezes, vai. Depois você me conta.

Um comentário sobre “Voluntárias no Nepal

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s