A rede de apoio da maternidade

Essa semana têm sido bem difícil pra mim, ando muito cansada de ficar com a Lara o dia todo e ter pouco tempo para mim. Ontem eu tive que pedir para o meu marido parar de trabalhar um pouco mais cedo para ficar com ela e, acho que percebendo meu cansaço, hoje ela acordou mais agitada e birrenta do que nunca. E ela não é uma criança birrenta, parece que eles sentem quando você tá cansada e tentam te levar ao limite.

Todos os dias eu levo ela pra passear pelo bairro e sempre vou ouvindo um podcast pelo caminho. No momento estou ouvindo episódios aleatórios do podcast “É nóia minha” da Camila Fremder. O tema do episódio de hoje, selecionado aleatoriamente pelo Spotify, era “Precisamos falar sobre rede de apoio”. É antigo, de antes da pandemia. A Camila recebeu duas convidadas e a discussão era sobre a importância de ter uma rede de apoio na criação dos filhos.

Logo nas primeiras palavras do podcast eu já comecei a chorar, na rua mesmo, empurrando o carrinho, e continuei até quase o fim do episódio. Elas estavam contando histórias de pessoas que as ajudavam na criação dos filhos e de como, muitas vezes, as pessoas não sabem como ajudar, principalmente os que não tem filhos.

Eu me identifiquei demais com essa segunda parte. Antes de ter a Lara eu ia visitar os recém nascidos e ficava no sofá segurando a criança, achando que eu estava ajudando a mãe. Depois que a Lara nasceu eu descobri que a mãe de um recém nascido não precisa de alguém pra segurar o bebê, ela precisa de alguém pra lavar louça, arrumar a cozinha, fazer comida,varrer a casa, qualquer coisa. O que eu menos queria é ter alguém segurando o meu bebê pra eu poder lavar roupa.

No nosso caso, a Lara nasceu nos Estados Unidos e a nossa família estava no Brasil, mas felizmente no primeiro mês a minha mãe estava lá e ela sabia exatamente do que eu precisava, fez muita falta quando ela foi embora e a gente ficou sozinho com aquele ser humaninho dependente de nós. Mas deu tudo certo.

Mas quando o bebê cresce um pouco, essa rede de apoio passa a ser super necessária de uma maneira diferente. A Lara agora tem um ano e meio e eu não preciso que alguém lave a louça pra mim (apesar de que eu nunca negaria uma oferta porque a louça e eu nunca tivemos uma boa relação), eu preciso de alguém que fique com a Lara para eu sair sozinha, ir no cinema, jantar fora com o meu marido, tomar um banho de banheira demorado e, principalmente, descansar.

E eu descobri que esse “descansar” carrega muita culpa. É estranho imaginar alguém cuidando do seu filho enquanto você está deitada na cama olhando o seu Instagram ou vendo uma série na TV. Imagina ouvir seu filho chorando e você, ao invés de correr para ver se está tudo bem, fecha a porta do quarto pra não ouvir.

Esse pensamento me fez entender porque está tão difícil para mim nesse momento. Estamos há meses trancados em casa aqui em Portugal. A escola da Lara está fechada sem previsão de abrir, meu marido está trabalhando dobrado porque eu não posso trabalhar agora, preciso cuidar da bebê. E a minha família e os meus amigos não podem ajudar porque as fronteiras com o Brasil estão fechadas e nós nunca pedíriamos para alguém pegar um avião no meio de uma pandemia.

A gente tem uma rede de apoio virtual enorme, cheia de gente que gostaria de vir aqui nos ajudar, mas na prática nós não temos ninguém. E foi aí que esse podcast me pegou. Ouvir essas mães falando sobre como elas precisaram e precisam de ajuda e como foi importante ter gente disposta a ajudar, me fez sentir mais sozinha. Mais sozinha porque, nesse momento, não existe o que fazer além de ficar sozinha.

E do outro lado está a culpa. Meu marido está trabalhando muitas horas por semana e ainda acorda cedo para ficar com a Lara antes do trabalho e pega ela no fim do dia para me dar um descanso. Mas eu não consigo descansar porque eu me sinto culpada de deixar ele com ela depois de ele ter trabalhado o dia todo e ainda ter que continuar mais um pouco depois que ela dormir. E ao invés de descansar eu vou arrumar a casa, porque além de tudo ainda tem a casa.

Ouvir esse podcast foi um alívio para mim. Não resolveu nada porque agora não há o que resolver, mas me fez entender porque eu estou tão cansada, tão sem paciência e tão infeliz.

O único conforto é que eu sei que vai passar, que daqui a pouco a escola dela abre novamente, a vida vai entrar mais ou menos nos eixos e eu vou poder sofrer por outras coisas. Enquanto isso, a Deborah que me aguente (Deborah a minha terapeuta, que não sei como ainda não desistiu de mim).

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