Ode à louça suja

Infelizmente eu não tenho a resposta ainda, mas recentemente eu tive um momento de iluminação, que começou em uma sessão de terapia, e que tem se provado muito útil nesse momento em que eu estou odiando tantas coisas.

Tudo começou quando, pela milésima vez na terapia eu estava reclamando de tudo. Claro, o momento é difícil, tá complicado pra todo mundo, mas a reclamação estava excessiva. O assunto do momento era a louça, sempre a louça. Como eu odeio lavar louça, como sempre tem louça suja na pia, como a máquina de lavar louça não funciona direito e por aí vai.

Minha psicóloga, sempre muito paciente e sábia, escutou tudo impassível e quando eu terminei de vomitar aquele monte de ódio sobre louça ela veio com um conceito bem simples. Louça é uma coisa que sempre vai existir e lavar louça é um trabalho que você sempre vai ter que fazer e que você nunca vai gostar, então você tem duas opções, você pode continuar odiando, reclamando e sofrendo ou você pode tentar transformar a atividade de lavar louça em algo que não te faça sofrer.

Concordei com a cabeça, mas não estava convencida. Passaram-se uns dias, muitas louças foram lavadas e eu continuava não só odiando fazer aquilo como falando sobre isso com quem eu encontrasse. Meu marido coitado não aguentava mais ouvir falar em louça (antes que alguém fale, já digo que aqui as tarefas são dividas e ele faz outras coisas na casa).

Aí, certo dia, eu olhei para pia cheia de louça, comecei a xingar mentalmente, mas meio que por acaso botei meu fone e comecei a ouvir um podcast engraçadinho. Quando eu vi eu nem estava mais prestando atenção na louça, eu estava rindo alto do podcast. Acabei de lavar a louça e decidi arrumar a cozinha até que o podcast acabasse.

Parece bobeira escrever um post inteiro sobre louça, mas aquele momento foi de pura iluminação para mim, porque não foi só sobre a louça. Comecei a pensar em todas as coisas das quais eu não gosto e quanto espaço elas ocupam na minha cabeça. Quando eu não gosto de algo eu sofro por antecedência, eu me imagino fazendo aquilo, crio situações na minha cabeça, invento diálogos. Tem todo um teatro que acontece que só me faz detestar mais o que quer que seja.

A partir daí eu tentei aplicar essa ideia a outras coisas que estão me deixando meio infelizes nesse momento.Gostaria de poder dizer que tem sido mágico e que eu virei a fada da felicidade, mas infelizmente isso ainda não aconteceu (e eu diria que nem vai acontecer). Mas aconteceu que eu estou encontrando pequenos prazeres nas coisas que eu não gosto e isso faz com que eu gaste menos tempo pensando nelas e sofra menos também.

Estou fazendo um esforço consciente para afastar os pensamentos de ódio à louça (e a outras coisas) e descobrindo como transformar tarefas chatas em menos chatas e está sendo bom. Ainda tenho momentos de recaída, mas bem menos.

Quem diria que uma pilha de louça suja teria tanto a dizer?

2 comentários sobre “Ode à louça suja

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