O curandeiro de Varanasi

Lembrei dessa história com a ajuda da minha querida amiga Paulina, que é a personagem principal e, na minha percepção, vítima do curandeiro.

No começo de 2011, Paulina e eu fizemos uma viagem de uns dois meses pela Índia e Nepal, começamos em Delhi, fomos descendo até Goa e depois subimos até Varanasi, cidade que faz fronteira com o Nepal.

Para quem não está ligando o nome à cidade, Varanasi é aquele lugar onde os indianos se banham no rio Ganges e onde também acontece a queima dos corpos dos mortos, cujos restos também são atirados ao Ganges. É uma cidade bem mítica e sagrada que atrai muitos turistas indianos e internacionais.

Varanasi era a nossa última parada antes de voarmos para o Nepal e a gente já estava mochilando há mais de um mês, estávamos exaustas e a Paulina estava há dias com uma dor na lombar. Eu não sei exatamente como tudo aconteceu, mas eu sei que um “curandeiro” se aproximou de nós e se ofereceu para resolver a dor nas costas da Pauli em troca de algumas rúpias.

O curandeiro era um senhor indiano como qualquer outro, e eu não sei exatamente como ele percebeu que ela estava com dor nas costas, mas eu imagino que observar os turistas e oferecer qualquer tipo de ajuda é uma profissão.

Como estávamos na Índia, deslumbradas com tudo, naquele clima de religiosidade e espiritualidade de Varanasi, achamos que ter um curandeiro tratando a Paulina era parte da experiência. Seguimos o senhor até o que ele dizia ser “meu consultório”, que era na verdade a casa dele, que tinha apenas um cômodo onde claramente ele dormia, comia e fazia sei lá mais o que. Era um barraco de madeira caindo aos pedaços. Não tenho fotos da casa dele ou do momento “da cura”, mas vou deixar aqui algumas fotos da cidade para vocês terem uma ideia de como era.

Até hoje eu não entendo porque a gente não desistiu ali, mas continuamos. Entramos no quarto, ele nos ofereceu um chá e em seguida pediu para a Pauli deitar no chão. Sim, deitar no chão, aquele chão sujo, de barriga para baixo, para ele começar o tratamento. Ela deitou.

Ela deitou no chão e eu me sentei logo ao lado. O quarto era pequeno, tinha um roupeiro pequeno, um montinho de lenha em um buraco, onde ele cozinhava e roupas e tecidos espalhados pelos cantos, no meio o espaço era vazio. Logo que eu sentei eu comecei a ouvir uns barulhinhos nos meios das roupas, de repente sai um rato correndo para fora do quarto. Eu dei um grito, falei “um rato”, a Paulina, deitada de bruços, também gritou, o curandeiro, que estava aquecendo uma chaleira com água, nem se abalou.

De novo, foram muitas as oportunidades de sair dali correndo, mas a gente foi ficando.

Depois que a água da chaleira tinha fervido, ele pediu para a Paulina levantar a blusa até o meio das costas e abaixar a calça até o meio da bunda, jogou umas ervas e uns negócios com cheiro nas costas dela, colocou um pano dobrado na lombar e pousou a chaleira com água fervendo em cima do pano. E ele ficava tirando e pondo a chaleira quente sem parar. Quando a água esfriava ele fervia de novo. E foram umas duas horas fazendo isso, a Pauli já estava com queimaduras nas costas, mas a gente continuou lá.

Os ratos continuaram passando, entrando e saindo do quarto, eu fiquei sentada, mas já em posição de correr, olhando os ratos com o canto do olho (como se encará-los fosse causar algum tipo de reação). Fiquei analisando aquele quartinho que não tinha nada para ser analisado, absolutamente nada. Era escuro, com roupas, tecidos e coisas jogadas pelos cantos e aquele buraco com lenha que ele usava de fogão. E os ratos que o faziam companhia. Me lembrou até do Ed Morte, que dividia seu escritório com as baratas.

E enquanto aquele homem queimava a Paulina com uma chaleira quente eu ficava imaginando que tipo de vida ele levava. Se ele tinha alguém, se tinha família, se dormia mesmo com os ratos. E na nossa viagem a gente descobriu que muita gente vivia assim também.

Mas voltando, depois de queimar as costas da Paulina por duas horas, ele jogou uma água gelada, secou tudo e falou que estava pronto. Ela levantou e continuava com a dor nas costas, agora somada a dor das queimaduras. Pagamos o senhor e ela perguntou quando a dor iria melhorar, ao que ele disse “fique deitada, repouse as costas e tome Ibuprofeno três vezes ao dia que você vai melhorar”. E sumiu.

Ele não sumiu, mas foi como se tivesse sumido porque a gente ficou se olhando por tanto tempo tentando entender o que estava acontecendo que ele foi embora e a gente nem viu. O que aconteceu foi a mesma coisa que já tinha acontecido um milhão de vezes com a gente na Índia, fomos enganadas. E na arte de enganar, eles são campeões.

Paulina ficou bem e conseguiu seguir viagem depois de tomar Ibuprofeno, as queimaduras demoraram mais para melhorar.

Essa é a Paulina em 2011 em Varanasi, ainda com dor nas costas

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s