Valentine´s day em tempos de confinamento

Como hoje é Valentine´s day eu achei que valia uma menção no título, mas esse texto é sobre casamento em tempos de confinamento, mais especificamente o meu relacionamento durante esse confinamento.

Quem perdeu a nossa história de confinamento pode ler aqui, mas basicamente Paulo Eduardo, Lara, os dois cachorros e eu ficamos quase 8 meses presos nos Estados Unidos, confinados e vivendo de Airbnb em Airbnb, até que chegamos aqui em Portugal, tivemos algumas semanas de “normalidade parcial” e estamos os 5 confinados novamente faz uns 2 meses. Resumindo, faz quase 1 ano que somos só nós 5 vivendo juntos O TEMPO INTEIRO. Eu coloco os cachorros nessa conta porque eles causam grandes momentos de amor ao mesmo tempo que causam grandes momentos de estresse. Qualquer dia vou escrever sobre a vida com uma criança e dois cachorros, mas vamos voltar ao tema de hoje.

Um pequeno histórico que vai ajudar a explicar o nosso relacionamento no confinamento. Paulo Eduardo e eu nos conhecemos já mais velhos, eu tinha 34 e ele 35 (ou próximo disso), ele furtivamente se instalou no meu apartamento e um dia eu acordei e percebi que estávamos morando juntos, acho que uns 6 meses depois que a gente começou a namorar. Isso foi lá por Outubro de 2014. Eu já estava querendo uma transferência para os Estados Unidos e quando a ideia se confirmou a gente decidiu se casar para que ele pudesse ter o visto de trabalho americano. Não muito romântico, mas a gente já estava morando junto e não víamos a necessidade de casar no papel, mas para a questão do visto facilitava. Casamos em Junho de 2015 e no começo de 2016 nos mudamos para Atlanta.

Nos conhecemos através de amigos em comum, então tínhamos (temos) um grupo de amigos dos dois, mas também temos amigos que são só deles e outros que são só meus. Antes de nos conhecermos nós dois tínhamos vidas agitadas com trabalho, festas, viagens e outras atividades socias, e uma das coisas que fez o nosso namoro dar certo foi o fato de que um sempre deu ao outro a liberdade necessária. Mesmo depois de casados cada um viajou sozinho quando quis, foi a festas e eventos sozinhos e fez coisas que não interessavam ao outro. Basicamente não nos tornamos aquele casal que vira uma pessoa só. E sempre tivemos confiança um no outro, não lembro de nenhum episódio de ciúmes nesses 6 ou 7 anos em que a gente está junto… e até o confinamento começar, praticamente nosso único motivo de briga era Paulo Eduardo com fome e eu pedindo para ele esperar para comer.

Mas com o confinamento muita coisa mudou. Nós, que somos pessoas super sociáveis, não pudemos mais socializar com ninguém. Nossas saídas individuais eram curtas porque não tínhamos para onde ir e porque tem a Lara, que é uma criança super ativa e a gente precisava se revezar pra cuidar dela.

No começo, nos primeiros dois meses, quando a gente achou que a pandemia ia acabar logo, era tudo engraçado, a gente ria da situação, ria das paranóias de limpeza um do outro, ria das coisas que estavam acontecendo com a gente, ria dos meus desastres culinários e nossa vida era praticamente um show de comédia.

Mas o tempo foi passando. A gente nunca tinha convivido tão intensamente por tanto tempo. Tinha uma ou outra Happy Hour virtual, conversas de whatsapp, mas a maior parte do tempo erámos nós dois juntos, tendo que cuidar de uma criança e dois cachorros, mudando de casa a cada dois meses e sem saber o que ia acontecer depois. Agora só mudou a parte de mudar, porque continuamos nós cinco sem saber o que vai acontecer depois.

E aí, com esse convívio intenso, aquelas coisas que a gente achava legal na outra pessoa vão começando a irritar. Por exemplo, Paulo Eduardo é uma pessoa que gosta de falar sobre coisas o tempo todo. Todo tipo de coisa, o tempo todo. Você vê uma rua de paralelepido e ele começa “porque o paralelepipedo foi inventado não sei quando por não sei quem…”, ou você fala que vai comer um croissant e ele fala “porque o croissant veio de não sei onde não sei porque…” e é isso para tudo. No começo eu achava legal, porque a gente não estava o tempo todo junto e ele podia dividir os conhecimentos com outras pessoas, mas agora só tem eu e o coitado não consegue se conter, ele precisa compartilhar tudo isso. (Felizmente ele decidiu fazer um podcast para dividir esse conhecimento inútil com outras pessoas, procure por Inutil pero no mucho no Spotify, Intagram, Facebook, etc).

Outra coisa, o ronco. Sempre fui muito feliz que Paulo Eduardo não ronca muito, ele respira um pouco mais alto. Com essa pandemia eu tenho acordado mais a noite, e as vezes demoro para voltar a dormir, aí eu fico ouvindo aquela respiração mais pesada e me dá uma raiva. Primeiro porque significa que PE está dormindo e eu não, e segundo porque é uma respiração inconsistente. O que me incomoda não é o barulho, mas é que o intervalo entre as respirações muda e aí eu fico lá, olhando pro teto, tentando adivinhar quando vem a próxima respiração. E fico com ódio porque quando ela vem no momento esperado ela faz barulho diferente e aí desestabiliza tudo de novo, é um inferno.

E são todas as pequenas coisas também. A louça que ficou em cima da mesa (por parte dos dois), a hora que a gente vai comer, quem esqueceu de fazer o arroz pra Lara, um querer conversar quando o outro quer ficar sozinho… todas essas pequenas coisinhas que em um dia a dia normal a gente não ia nem reparar já viram motivo de discussão. Agorinha mesmo por exemplo, a Lara acordou e era a vez dele de pegar ela, mas eu tava aqui do lado e fui lá dar um beijinho e falei que ele precisava trocar a fralda, aí ele ficou bravo porque ele sabe que tem que trocar a fralda, mas ontem ele esqueceu de trocar a fralda, mas de antes de ontem quem esqueceu fui eu e por aí vai.

Como quem tá escrevendo sou eu, não vou escrever as coisas que eu faço que têm deixado PE maluco, até deixo ele escrever aqui se quiser, mas posso dizer que são muitas e que, com algumas poucas, eu até concordo.

Lendo tudo isso parece um milagre que a gente ainda está junto, mas nesse Valentine´s Day, fazendo uma retrospectiva, eu vejo que a gente passou a se conhecer muito melhor nesse período de convivência intensa. Nos tornamos pais muito melhores e companheiros melhores.

Nesse momento tão cansativo de isolamento social, conseguir manter a paz já tá mais do que bom. Fico curiosa pra saber como vai ficar nosso relacionamento quando as coisas voltarem mais ou menos ao normal. Mas uma coisa é certa, assim que possível eu vou pegar minha malinha e passar um fim de semana sozinha num spa, porque com marido, criança e dois cachorros, a solidão é a única coisa que eu ainda preciso conquistar.

E nesse Valentine´s day, a gente vai requentar a pizza de ontem, tomar um vinho, passar 30 miutos tentando achar uma série que os dois gostam, desistir e dormir.

Beijo aos sobreviventes!

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