Tá tudo bem, a gente bebe suco

Infelizmente, ou felizmente, todas as histórias que eu conto aqui do meu tempo de RH são verdadeiras, essa é só mais uma.

Certa vez, talvez por volta de 2006, eu estava conduzindo uma dinâmica para um programa de estágio. Imagino que a maior parte das pessoas aqui já deva ter participado de uma dinâmica dessas e sabe como é, porque no fim das contas é sempre igual.

Nesse dia eu comecei com um quebra gelo para que todo mundo pudesse se apresentar e aí já aconteceu uma coisa inusitada, um menino estava se apresentando, de repente ele olhou para o celular e falou “ah, deixa pra lá, acabei de receber uma mensagem de que fui aprovado em outro processo”, levantou e saiu da sala. Eu achei meio esquisito, mas continuei. Passados uns 3 minutos o menino voltou e falou “desculpe, só fui aprovado para a próxima fase, então vou continuar aqui nessa dinâmica”. Se fosse hoje eu teria dito que não ia rolar e pedido pra ele sair, mas eu era jovem e inexperiente e deixei ele continuar.

A atividade principal da dinâmica era uma que já é bastante conhecida. Todo mundo vai para uma ilha deserta e só podem levar 5 coisas de uma lista de umas 20 coisas que eles recebem e, em grupos, precisam decidir o que eles vão levar. Não tem resposta certa ou errada, a ideia é ver como eles interagem em grupos e os argumentos que usam para defender seus pontos de vista, além de liderança, partipação e essa coisa toda.

Separei todo mundo em grupo e começaram as discussões. Vez ou outra apareciam umas ideias meio estranhas, teve um que disse que não precisava de árvores porque no Japão já estavam desenvolvendo árvores de plástico, outro falou que não precisava de bússola porque Jesus mostrava o caminho e mais algumas pérolas.

Até que chegou no assunto água. Como no papel que eles receberam dizia que na ilha não tinha água potável, água era um dos itens que eles tinham que decidir se levavam ou não. Em todos os grupos havia um consenso de que água era essencial, até que uma menina, que até então mal tinha se manifestado, falou “acho besteira levar água, qualquer coisa a gente bebe suco”.

E foi isso, a sala ficou em silêncio por alguns segundos, todo mundo tentando entender se ela tava falando sério ou não, até que alguém decidiu ignorá-la e seguir para o próximo item da lista.

Não lembro exatamente quantos foram aprovados nesse processo, mas posso imaginar que não muitos.

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