A solidão de quem mora fora do país

Hoje conversando, ou melhor whatsappzando, com uma pessoa me veio a ideia de escrever sobre esse tipo de solidão que a gente sente quando mora fora do nosso país. Isso não é algo novo para mim, mas com essa pandemia eu acho que esse sentimento, assim como muitos outros, está mais intenso.

Esse post será um pouco mais longo do que o normal, porque eu quero contar um pouco da minha história antes de falar desse assunto da solidão. Vou separar em partes pra facilitar.

Parte 1 – 1995 Inglaterra (Bath)

Minha primeira experiência “morando” fora aconteceu em 1995, quando eu tinha 15 anos (aliás completei 16 nessa viagem). Como é costume da classe média brasileira, quando eu completei 15 anos meus pais perguntaram se eu queria uma festa ou uma viagem, escolhi viagem sem pensar. Naquela época todo mundo ia pra Disney com a Tia Augusta, mas eu tinha (tenho) uma amiga que me propôs algo muito melhor: três meses na Inglaterra estudando inglês.

O esquema era assim, ela tinha uma vizinha que era inglesa e que iria com a gente para Londres. Chegando em Londres a gente ia se separar, ela iria para o norte, mais perto da Escócia e eu iria para o sul, para Bath. A gente queria aprender inglês mesmo, então não queríamos ficar juntas falando português o tempo todo. Depois de passar 2,5 meses nesses lugares a gente se reencontraria em Londres, passaríamos uma semana, viajaríamos para Paris de trem e depois para a Itália, onde ficaríamos na casa de alguns parentes dela.

Agora vejam vocês, estamos falando do ano de 1995 e eu tinha 15 anos. Não havia celular, internet, cartão de crédito e nenhuma dessas facilidades que a gente tem hoje, mas meus pais, sendo almas iluminadas e confiando muito em mim, me deixaram ir.

A parte logística foi complicadíssima, porque sem cartão de crédito ou internet eu tinha que levar o dinheiro em notas e só poderia gastar aquilo que eu tinha, naquela época não dava para transferir ou levar cartão pré pago. Então calculamos quanto ia custar a escola e a estadia em Bath (que já incluía alimentação), o pai da Carol (minha amiga que inventou tudo isso) comprou as passagens de trem pra Paris e na Itália ficaríamos com os parentes dela.

Um dia talvez eu conte com mais detalhes essa viagem, mas pra resumir, deu tudo certo. Teve perrengue de monte incluindo bomba de gás no metrô de Paris, a gente almoçando pão com a geléia que a gente roubava do café da manhã, os parentes da Carol só falando italiano e a gente não conseguindo se comunicar por 15 dias, mas voltamos sãs e salvas.

Três meses não é exatamente morar fora, mas eu considero essa viagem como morar porque eu tinha só 15 anos, nunca tinha ficado tanto tempo longe de casa e foi uma experiência toda nova.

PS. Carol me autorizou a publicar essas fotos, mas concordamos que o tempo só nos fez bem.

Parte 2 – 2009-2010 Austrália (Brisbane)

Por várias conspirações do universo, que eu vou deixar pra contar outro dia, em 2009 eu fui fazer um mestrado em Brisbane, na Austrália. Um mestrado em Relações Internacionais com Especialização em Paz e Resolução de Conflitos (curso que também apareceu na minha vida meio que por mágica, mas também vou deixar essa pra depois).

Eu já tinha 29 anos quando eu fui, já morava sozinha, já trabalhava há muito tempo, foi uma experiência completamente diferente. Aliás, eu diria que nessa época eu era workaholic, trabalhava demais e só pensava em trabalhar mais, só fui estudar fora porque a empresa em que eu trabalhava tinha sido vendida e eu ficaria sem emprego.

Chegando em Brisbane eu logo conheci uma turma de latinos que foram os amigos que me acompanharam pelos quase 2 anos de curso. Tinha chilenos, mexicanos, colombianos e brasileiros, até hoje tenho contato com todos e nos encontramos algumas vezes depois.

Minha vida em Brisbane era completamente diferente da minha vida em São Paulo. Na Universidade eu tinha 4 cursos por semestre, em horários aleatórios. O meu visto de estudante me permitia trabalhar, mas a única coisa que dava para fazer que tivesse um horário super flexível era trabalhar como garçonete em eventos e eu fui fazer isso. Agora imaginem o choque, quando eu saí do Brasil eu era Gerente de RH da GE, de repente eu me vi vestida de branco e preto servindo pig in a blanket em eventos sociais (pig in a blanket é como eles chamam o enroladinho de salsicha), e não só isso, uma vez me mandaram trabalhar num funeral. Mas o que eu mais gostava era trabalhar nos estádios (mais uma história pra outro dia).

O ponto é que eu estava vivendo uma vida que eu nunca imaginei. Aos 30 anos eu tinha virado estudante e garçonete. E a minha vida social, minha gente, minha vida social era algo de outro mundo. Não dá pra saber quantas caixas de vinho a gente consumiu nesse período. Todo dia tinha festa, a nossa casa tava sempre cheia (eu morava com uma chilena que é uma amiga maravilhosa até hoje), quando estavamos sozinhas a gente comemorava também e sempre tinha festa a fantasia, festa temática, festa na praia. Olha, não vou entrar em detalhes nesse momento, mas meu conselho é: visitem a Austrália.

E como a Austrália tá lá pertinho do Sudeste Asiático, viajamos muito, Indonésia, Malásia, Camboja, Laos, Tailandia, Vietnam, Fiji, Nova Zelândia, Indía, Nepal… não perdemos nenhuma oportunidade.

Mas voltei pro Brasil em 2011. Mestre em Relações Internacionais e sem saber o que fazer.

Parte 3 – 2011-2012 Guatemala (Panajachel)

Cheguei no Brasil completamente perdida, não sabia o que fazer da vida, fui passar uma temporada com uma amiga em Aracaju e quando voltei pra São Paulo decidi que eu queria trabalhar em uma ONG na Guatemala. No último semestre do mestrado eu tinha feito uma dissertação sobre o papel das mulheres durante a guerra civil na Guatemala e aquilo ficou na minha cabeça.

Como eu não tinha nada mais em mente, decidi tentar a sorte. Nunca tinha ido para a Guatemala, não conhecia ninguém lá e nem que tivesse ido visitar, nada. Entrei num site chamado idealist.org que publica vagas de ONGs pelo mundo e achei uma que me interessou. Na verdade, sendo na Guatemala, qualquer uma me interessaria, mas não tinham muitas. Mandei meu currículo, fiz uma entrevista por skype e eles decidiram me contratar.

Fui parar num vilarejo chamado Panajachel, a 3 horas de Guatemala City (a capital). Três horas é um tempo estimado porque muitas coisas inesperadas podem acontecer pelo caminho (e acontecem).

Fui. Desci no aeroporto de Guatemala City e tinham perdido as minhas malas. Meu transfer tava saindo e eu cheguei em Panajachel com a roupa do corpo (mas vou deixar essas histórias engraçadinhas da Guatemala para depois também).

A ONG em que eu trabalhei se chamava Mayan Families e eles atendiam a população Maia que vivia ao redor do Lago Atitlan (Panajachel era um dos vilarejos que fica em volta do lago). O meu trabalho era bem variado. A princípio eu iria entrevistar as famílias Maias que pediam ajuda para a ONG e escrever a história deles em um blog para conseguir dinheiro para o que quer que eles precisassem (comida, ajuda médica, casa, móveis, etc).

Mas os donos da ONG acharam que eu tinha jeito com pessoas e falava um espanhol melhor que os outros funcionários (que eram todos americanos), então eu comecei a fazer visitas às famílias, levar pacientes para Guatemala City, levar os doadores que vinham visitar dos EUA e Canadá para conhecer as famílias que eles ajudavam, ajudava a construir os fogões a lenha que eram doados e fazia todo tipo de serviço que fosse preciso.

Amei cada minuto, sofri cada minuto. Você não precisa conhecer nada sobre a Guatemala para saber que é um país extremamente pobre. Eu lidava com a população Maia que, muitas vezes nem falava espanhol (eles têm várias línguas indígenas), e que vivia na pobreza extrema. E Panajachel, apesar de ser uma cidade turística, não tem estrutura para suportar a temporada de chuvas, que dura 6 meses.

O outro lado da história é que eu conheci pessoas fantásticas, alguns que trabalharam na ONG o tempo todo em que eu estive lá, outras que estavam só de passagem fazendo trabalho voluntário.

E por incrível que pareça, a minha vida social era bem ativa. Por ser turística, a cidade tinha alguns bares e restaurantes (uns 7). Mas tinha toque de recolher a meia noite e ninguém, ficava na rua depois disso, era um lugar bastante perigoso.

Depois de 1 ano decidi voltar de novo para o Brasil.

Parte 4 – 2016-2020 Estados Unidos (Atlanta e arredores)

Em 2012 eu voltei para o Brasil, fiquei perdida de novo sem saber o que fazer, passei por uma fase negra e decidi voltar para o mundo de RH, mais pela facilidade do que pelo desejo, mas voltei.

Comecei a trabalhar na ADP Brasil em Março de 2013, várias coisas aconteceram, inclusive eu conheci meu marido e casei e em Março de 2016 eu fui transferida para a ADP Estados Unidos.

Essa mudança foi diferente, eu já estava casada, a empresa nos deu todo o suporte logístico, pagou tudo pra gente mudar e se instalar e fez tudo ser bem fácil para nós.

Nos Estados Unidos nós adotamos 2 cachorros, moramos em 3 casas diferentes e, o mais importante, fizemos fertilização e tivemos a nossa Lara maravilhosa coisa linda de bebê.

Paulo Eduardo encontrou o emprego dos sonhos dele em uma empresa de video game e eu fiquei meio que me arrastando no meu emprego porque o nosso visto dependia disso, até que decidimos sair de lá e nos mudar pra Portugal (essa história eu já contei aqui).

Parte 5 – Portugal (Margem Sul)

Em Outubro de 2020 nos mudamos de mala e cachorros para Portugal. E aqui estamos faz quase 4 meses. Já tenho bastante história pra contar mas, mais uma vez vou deixar isso para outra ocasião.

Parte 6 – Finalmente! A saudade que sente quem mora fora do Brasil

Eu quis dar essa introdução enorme em primeiro lugar porque eu sei que tem muita gente que não me conhece e em segundo lugar para mostrar que eu já morei fora do Brasil em ocasiões e situações bem diferentes.

Eu não sou psicóloga ou estudiosa da mente humana, então o que eu estou escrevendo aqui é meramente a minha opinião, baseada na minha experiência, por favor não me cobrem fontes nem nada assim 🙂

Eu acredito que existem alguns tipos de solidão, ou talvez seja uma solidão em diferentes contextos. Mas eu sinto que existe uma solidão específica de quem é brasileiro e mora fora do Brasil. Pelo menos para mim tem sido assim.

Não é uma solidão de você estar sozinho (se bem que as vezes tem essa também), mas é uma solidão de não pertencer. De você olhar para o lado de vez em quando e pensar “que lugar e quem são essas pessoas?”. Você pode morar há bastante tempo em outro país e ainda se sentir assim.

Pela minha experiência, essa é uma solidão de coisas, não de pessoas, eu diria que é uma solidão cultural. É um sentimento de estar perdido em um lugar que não é seu.

Claro que a gente sente saudade dos amigos e da família, dos churrascos, festas e aquelas coisas todas do nosso Brasilzão, mas o que eu estou dizendo é diferente.

É um vazio por você não pertencer. Por você não entender como as coisas funcionam e porque elas são daquele jeito. É você sempre se sentir de fora, por mais que as pessoas tentem te incluir. É aquela sensação de que você “nunca será como eles”, porque quando você mora em outro país existe você e existem eles, os locais.

Em todos esses lugares que eu morei eu sempre me aproximei mais de outros brasileiros (e alguns latinos também), mas foram poucos os locais (australianos, guatemaltecos, americanos, etc) que se tornaram amigos. Essas diferenças culturais são muito fortes e muito presentes. É difícil você se integrar e se sentir como igual.

Não quero desanimar ninguém que está pensando em morar fora, pelo contrário, eu não mudaria nada na minha história e não pretendo voltar para o Brasil por enquanto, mas esteja preparado para essa solidão, para esse sentimento de não pertencer. A gente pensa que com a globalização o mundo virou um só, mas esqueceram de avisar o nosso coração.

Um comentário sobre “A solidão de quem mora fora do país

  1. Sabe, Dina, acho que sei bem o que vc está falando. Mas às vezes, ainda dentro do país, dentro da família, já me senti assim.
    Tomo um chá, me pego no colo e observo.Sinto-me um”outsider” Tem o lado bom de vc conseguir preservar a individualidade e aprender a amar o diferente.
    Adoro seus textos!

    Curtido por 1 pessoa

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