A interminável estrada de São Paulo a Bauru

Sim, esse é mais um post sobre a angústia do confinamento.

Eu imagino que todo mundo tenha memórias emocionais, aquelas lembranças que são acordadas por um cheiro, um som ou, no meu caso agora, uma sensação.

Não é surpresa para ninguém que esse confinamento está me deixando angustiada e ansiosa. Aqui em Portugal está tudo fechado. Pra ir a pé na esquina a gente precisa levar um comprovante de residência caso algum policial resolva nos parar. Estamos em casa com a Lara o tempo todo. O TEMPO TODO.

A princípio esse lockdown duraria 15 dias, mas já imaginávamos que poderia continuar por mais tempo, só não sabemos que tempo é esse. Todo dia tem notícia nova, mudança de planos e informações cruzadas. Foi justamente isso que me trouxe essa lembrança da estrada de São Paulo para Bauru.

Lá por 2005, no auge da minha vida de Recursos Humanos, eu viajava bastante a trabalho e muitas vezes viajava de carro da capital de São Paulo (onde eu morava e trabalhava) para alguma cidade do interior. Uma dessas viagens foi para Bauru.

Estamos falando de 2005, ainda não existia Waze ou Google Maps, pelo menos não no celular e não para mim. Eu olhava o caminho no Google no computador de casa, imprimia ou anotava e levava o papel comigo. Durante o caminho não havia uma voz me dizendo o que fazer ou quanto tempo faltava para chegar.

A parte que eu vou contar agora pode não ter os fatos muito precisos, mas é como a minha memória se lembra. A viagem de São Paulo para Bauru leva mais ou menos umas 5 horas, é uma estrada boa e a viagem tende a ser relativamente tranquila. Mas tem um trecho de mais ou menos duas horas em que não tem nada além de mato dos dois lados.

Eu lembro claramente de entrar nesse pedaço da estrada e pensar “que linda essa paisagem e que delícia essa sensação de estar sozinha, afastada da civilização”. Mas conforme eu fui dirigindo e o tempo foi passando, eu comecei a ficar um pouco menos feliz, comecei a pensar no que eu faria se meu carro quebrasse ou se eu precisasse fazer xixi. Passada uma hora a sensação já era de desespero, uma angústia enorme de não saber quanto tempo mais eu ia ficar isolada naquela estrada que já parecia sem fim.

Eu via as placas de Bauru mostrando quantos quilômetros faltavam, mas a sensação era de que aquilo não tinha fim. E eu sentia uma impotência enorme porque não havia nada que eu podia fazer. Se eu voltasse ia ter que andar quase duas horas naquela solidão, mas eu não sabia quanto mais caminho tinha para frente. E eu precisava chegar em Bauru.

Até que, depois do que pareceu um dia inteiro, eu comecei a ver casas, fábricas e tudo aquilo que a gente vê na beira das estradas. Foi um alívio tão grande, minha respiração desacelerou e eu dei um suspiro aliviado. Aquela viagem chegou ao fim.

Voltei para Bauru muitas vezes depois, mas nunca mais tive aquela mesma sensação horrível, porque das outras vezes eu já sabia o que ia encontrar.

Hoje me senti assim, angustiada e desesperada por não ver o fim, mas não ter outra opção a não ser continuar, exatamente como me senti naquela viagem.

A minha respiração continua acelerada e às vezes eu fico sem ar, com ansiedade por não saber quando isso vai acabar. Mas assim como você, eu vou continuar, porque assim como daquela vez, o fim há de chegar.

2 comentários sobre “A interminável estrada de São Paulo a Bauru

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