Mãe em Confinamento

O tipo de coisa para a qual ninguém está preparado. Quem em um milhão de anos iria achar que um dia estaria confinado em casa com os filhos, tentando evitar um vírus mortal que se espalhou pelo mundo? Eu certamente não imaginei.

Pra ser honesta eu não imaginei muita coisa sobre a maternidade, mesmo tendo quase 40 anos quando minha filha nasceu, eu ainda me questiono se estava preparada. Mas acho que assim como o confinamento, a maternidade é daquelas coisas que você aprende conforme vai vivendo. A diferença é que com a maternidade a gente estuda, pesquisa, conversa com pessoas e cria a ilusão de que estamos prontos, pelo menos comigo foi assim.

No meu caso, a minha filha é um bebê de confinamento, ela tinha 6 meses quando tudo começou, eu tinha acabado de voltar da minha licença maternidade, então agora, com 16 meses, podemos dizer que ela passou a maior parte da vida dela em casa conosco.

A crise aqui é que eu não passei a maior parte da minha vida em casa com ela.

A Lara nasceu nos Estados Unidos em Setembro de 2019, em Janeiro eu voltei a trabalhar e ela foi pra creche, mas em Março de 2020 eu pedi demissão e nós entramos em isolamento, a Lara passou a ficar em casa com a gente. Como nessa época meu marido também parou de trabalhar, nós criamos uma rotina e dividimos os horários com a bebê, assim cada um tinha tempo de fazer suas coisas e de descansar “entre turnos”, como a gente dizia.

Em Outubro viemos para Portugal e, assim que alugamos uma casa, colocamos a Lara em uma creche. Eu chorei demais, fiquei preocupada porque nos seus curtos 14 meses de vida, ela nunca tinha passado muito tempo longe da gente e nem tido contato com outras pessoas. A Lara chorou bem menos que eu, amou a escolinha. Amou tanto que de manhã, quando chega a hora de ir, ela pega o casaco e puxa a minha mão pra porta. Eu claro, fico super feliz e orgulhosa.

Mas na semana passada a situação do Covid em Portugal piorou demais, hospitais lotados, leitos de UTI 100% ocupados, falta de médicos, a coisa toda. Apesar de as escolas não terem fechado ainda, nós achamos melhor deixar a Lara em casa, para a nossa segurança e dos outros também. A diferença agora é que Paulo Eduardo está trabalhando o dia inteiro e eu estou com a Lara o tempo todo. Quase o tempo todo, PE ajuda demais e fica com ela sempre que possível, inclusive de manhã cedo para eu dormir meia hora a mais :).

Eu tinha esquecido como é ser uma mãe em confinamento. Cansa, cansa demais.

Esse serzinho é o maior amor da minha vida, amor tão grande que não dá pra explicar, mas eu sou uma mãe muito melhor quando eu tenho uma vida além da maternidade. Quando eu posso me ocupar com as minhas atividades, falar com os meus amigos, cozinhar e comer uma comida quentinha ou sentar pra tomar um café e ficar olhando para o nada.

Minha vida agora é recolher brinquedos do chão umas trezentas vezes por dia, calçar o sapato nela (de novo) a cada dez minutos, explicar que se ela bater com os brinquedos no espelho ele quebra e explicar de novo e de novo até ter que tirar ela do quarto. Imitar uma vaca, uma galinha, um sapo, um cavalo oitocentas vezes, ler o mesmo livro sem parar. Acalmar os cachorros toda vez que ela bate neles achando que tá fazendo carinho. Preparar lanchinhos e refeições balanceadas. Ler de novo o mesmo livro, imitar outra vez os mesmo animais, tirar ela do quarto mais uma vez porque ela está batendo no espelho, mas não sem antes procurar o sapato que ela descalçou e jogou em algum lugar no meio dos brinquedos que estão outra vez espalhados no chão.

Aí ela dorme, a gente toma um vinho, assiste uma série e vai dormir, porque no dia seguinte começa tudo outra vez. Me sinto diariamente no filme “O Show de Truman”.

E junto com o cansaço tem a culpa. A culpa de perder a paciência com ela algumas vezes, de não querer ler de novo aquele mesmo livro, de demorar demais pra trocar uma fralda e deixar ela molhada de xixi, de dar uma bolacha de arroz por preguiça de preparar um lanche melhor, por saber que ela está tão feliz comigo e eu só estou precisando respirar.

Eu não sei o que é ser uma mãe fora do confinamento, nunca fui uma por mais de um mês. Mas tenho certeza de que eu serei muito melhor como mãe e como mulher quando eu puder ser eu mesma, porque eu serei mais feliz, mais livre e com mais tempo para dedicar integralmente para a minha filha, tempo de qualidade em que eu vou querer estar grudadinha nela sem estar pensando se ainda é muito cedo para ela ir dormir.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s