O Covid, Portugal e a Novela Mexicana

Eu sei que muitas vidas foram perdidas e afetadas pelo Covid, essa é somente a história de como a nossa vida se transformou em uma novala mexicana (ainda em andamento).

O texto é grande, mas está separado em 8 partes para facilitar a leitura.

Parte 1 – O plano infalível

Em Outubro de 2019, quando eu ainda estava de licença maternidade, minha então chefe me ligou para dizer que o meu visto de trabalho ia vencer em Março de 2020 e eu precisava decidir se queria renovar o visto, aplicar para o green card ou ir embora.

Paulo Eduardo e eu conversamos, eu já estava querendo mudar de carreira, a gente já não queria mais ficar nos EUA, então decidimos não renovar o visto.

Conversei com a minha chefe e ela disse pra eu continuar trabalhando até quando eu quisesse antes de vencer o visto no dia 13 de Março de 2020.

Decisão tomada, começamos a discutir sobre pra onde iríamos mudar. Brasil sempre foi um plano B, queríamos continuar no exterior… vieram ideias de Australia, Canada, Inglaterra entre outras, mas com uma criança e dois cachorros a gente precisava de um plano bem bom. Como eu sou cidadã italiana (essa informação é muito importante para a história) e em Portugal, Paulo Eduardo sendo casado comigo automaticamente poderia trabalhar decidimos que seria um bom lugar para começar. Além disso conhecemos muitas pessoas aqui e claro, o idioma também ajuda.

Bom, até aí tudo certo e super simples. PE conversou na empresa dele e eles disseram que ele poderia trabalhar de Portugal e eu iria pensar no que fazer (minha chefe me ofereceu continuar trabalhando para ela de Portugal, mas eu realmente queria mudar de carreira e não aceitei). Eu só teria que ir para o Brasil tirar meu passaporte no consulado italiano, a gente compraria as passagens e estaria tudo resolvido.

Com esse plano infalível em mãos, decidimos aproveitar o Halloween, Thanksgiving e o Natal antes de fazermos alguma coisa.

Curtimos um Natal em família no estilo mais americano possível.

Parte 2 – Se tem burocracia é certeza que não vai dar certo na primeira tentativa, nem na segunda.

Seguindo com a nossa história, o nosso plano infalível dependia basicamente de eu ir para o Brasil no começo de 2020 pra tirar meu passaporte italiano. Fácil. Eu teria que marcar um horário no consulado italiano, ir lá fazer a entrevista e já sairia com o passaporte na mão. Fácil. Mas sempre tem uma pegadinha. Só é possível marcar a entrevista com, no máximo, uma semana de antecedência, através de um whatsapp de um celular do Brasil. Ou seja, eu teria que marcar a minha viagem ao Brasil bem antes de marcar a entrevista, correndo o risco de não dar certo.

Mas como eu sou uma pessoa preparada, peguei o whatsapp da minha mãe emprestado, liguei no consulado e perguntei sobre o agendamento, eles confirmaram que só uma semana antes, mas disseram que Janeiro é um mês tranquilo e que eu não teria problemas em agendar.Sabendo disso eu comprei as passagens e organizei tudo pra viajar com a Lara logo no começo de Janeiro.

Uma semana antes de eu viajar, conforme planejado, liguei para o consulado para agendar o passaporte. Tudo certo, a mulher que me atendeu imediatamente marcou pra quarta-feira de manhã e disse que eu sairia com o passaporte em mãos, mas antes de desligar pediu pra eu conferir meus dados… nome, data de nascimento, endereço e por fim que eu não tinha dependentes, aí eu falei que agora eu tinha uma filha de 4 meses… “ah senhora, então eu não posso agendar, primeiro você tem que cadastrar a sua filha pra depois tirar seu passaporte” 🙄🙄🙄. Eu disse que tudo bem e perguntei como fazia… bom, tinha que mandar a certidão de nascimento brasileira da Lara (que a gente ainda não tinha tirado pq ela nasceu nos EUA) e ia demorar 3 meses.

Paciência, a viagem já estava marcada, todo mundo ansioso pra conhecer a Lara, eu decidi ir mesmo assim e fazer o processo dela por lá. Nem vou entrar em toda a burocracia, mas envolveu meu tio e minha mãe indo até a Sé e outras coisas mais…Mas nosso plano continuava infalível, só mudou um pouco, mas ainda era simples e sem erros. A gente iria para Portugal em Fevereiro, entrava como turista e quando o negócio da Lara no consulado italiano finalizasse eu ia pro Brasil e tirava meu passaporte, no máximo em Abril de 2020. Fácil.

Enquanto isso descobrimos que o calendário de vacinação dos EUA é diferente do da Europa, então decidimos que seria melhor a Lara tomar as vacinas de 6 meses por lá antes de viajarmos (ela faria 6 meses no dia 5 de Março). Liguei na pediatra pra perguntar qual a data mais próxima pra ela tomar as vacinas e a recepcionista disse que só no meio de Março porque eu tinha atrasado pra dar as vacinas de 4 meses (porque a gente estava no Brasil).

Mais uma mudança, mas o plano continuava infalível. Viajaríamos no final de Março. Minha mãe viria para os EUA e iria comigo e com a Lara pra Portugal e PE iria uma semana depois com os cachorros. Compramos todas as passagens e reservamos o Airbnb.

(Lara se comportou exemplarmente nos vôos e dormiu o tempo todo)

Parte 3 – Covidou

Estamos agora no meio de Fevereiro, vacinas da Lara marcadas para dia 19 de Março, eu e PE trabalharíamos até dia 13 de Março (quando vencia nosso visto), o contrato de aluguel da nossa casa venceria em 31 de Março e as passagens estavam compradas para Lisboa para o fim de Março para todos da casa, mais a minha mãe que iria passar um tempo conosco para nos ajudar.

Eis que começa-se a falar no tal do Covid, que até esse momento estava mais ou menos isolado na China… a Europa começa a se preocupar e tomar medidas e os EUA mais ou menos também. Digo mais ou menos porque o isolamento, obrigatoriedade do uso de máscara e afins, são decisões dos governadores, então cada um tava fazendo uma coisa. Na Georgia, onde estávamos, até começo de Março nem se falava no assunto. Plano infalível ainda estava de pé.

Eu lembro exatamente o dia que tudo mudou, 12 de Março. Eu estava no trabalho, meu penúltimo dia, quando a minha chefe chamou o time todo para uma reunião pra avisar que aquele seria o último dia no escritório, a partir do dia 13 todo mundo trabalharia de casa até segunda ordem. Eu devolvi meu computador naquele dia mesmo e não voltei mais.

Enquanto isso, o Brasil começou a se preocupar também e acabamos cancelando a viagem da minha mãe, que estava no grupo de risco e obviamente não poderia viajar. Mas a nossa ida ainda tava de pé.

Para encurtar essa parte da história, nesse fim de semana do dia 14 de Março a coisa começou a ficar mais séria, nós não levamos a Lara mais para a creche e, pra nosso desespero, a Europa começou a falar em fechar as fronteiras para voos dos Estados Unidos.

Bom, lá pelo dia 20 de Março tivemos que cancelar nossos voos e o Airbnb e decidir o que iríamos fazer. Lembrando que nessa época ninguém sabia quanto tempo essa pandemia iria durar, estávamos tomando decisões no escuro.

A situação era a seguinte, a gente não sabia quando poderia ir para Portugal, não poderíamos mais trabalhar nos EUA porque estávamos sem visto de trabalho (ou seja, não iríamos ganhar dinheiro) e o contrato de aluguel da nossa casa venceria em duas semanas e a gente já tinha avisado que ia sair.

As opções não eram muitas, ou a gente ficava nos EUA até poder viajar ou voltava para o Brasil. Como todos já sabem, optamos por ficar.

E só pra dar mais raiva, quando levamos a Lara para tomar as vacinas, que foi o motivo de a gente não ter viajado antes, descobrimos que a pessoa nos deu a informação errada e ela poderia ter sido vacinada em Fevereiro 😡 e a gente poderia já estar em Portugal. Passamos muito tempo culpando essa pessoa por não termos podido viajar naquela época.

(E nevou muito no mês de Março, ficamos muito gratos por podermos ter uma casa com aquecimento central)

Parte 4 – O barato saiu caro

Nosso plano infalível teve que ser adiado, mas continuava de pé. Agora estamos em Março, passagens e Airbnb cancelados e a decisão de ficar nos EUA, sem trabalhar, até conseguirmos viajar.

Nesse momento a gente achava que em dois meses conseguiríamos sair. Conversamos com os donos da casa em que a gente morava e fizemos um acordo de renovar o aluguel mensalmente, pagando menos do que a gente pagava, com a condição de que a gente deixaria eles mostrarem a casa para outras pessoas e quando encontrassem alguém para alugar por longo prazo nos avisariam com 15 dias de antecedência. Na época achamos que era um excelente negócio porque afinal, quem iria querer alugar casa durante uma pandemia?

Acontece que muita gente queria. Todo dia vinha alguma família visitar. Vinha gente com ou sem máscara, uns tiravam o sapato outros não, alguns encostavam em todas as superfícies, era um horror. E a Lara era pequena, a gente tentava esconde-la, mas tinha gente que queria brincar e chegar perto, foi difícil.

Mas pior do que as pessoas visitando era não saber quando a gente teria que sair. A qualquer momento os donos poderiam dizer que a gente tinha duas semanas pra arrumar outro lugar pra ficar. Começamos a vender ou doar a casa inteira, sofás, mesa de jantar, televisão, brinquedos da Lara, tudo. Passamos mais ou menos um mês dormindo em um colchão no chão, comendo no chão, sentados no chão assistindo a televisão que também estava no chão.

Até que o dia chegou. Alguém alugou a casa e a gente teria que sair. Bateu aquele pânico porque a pandemia só tinha piorado, a gente não estava trabalhando e não tínhamos para onde ir.

Por sorte conseguimos alugar um Airbnb, mas iríamos pagar quase o dobro do que o aluguel que estávamos pagando, paciência. Alugamos por dois meses, Junho e Julho, acreditando que no fim de Julho as coisas estariam mais tranquilas e a gente conseguiria viajar.

Foram duas semanas terríveis antes da mudança, a gente tendo que se livrar de tudo que tinha na casa enquanto cuidava da Lara. Quem já fez mudança sabe o quanto de coisa a gente acaba acumulando e o trabalho que dá.

Mas enfim, no fim de Maio nos mudamos. Levamos várias malas de roupa, berço, banheira, alguns brinquedos da Lara e quase todos os utensílios de cozinha pra poder usar no Airbnb. Alugamos um caminhãozinho de mudança e fomos. E aí começou a saga dos Airbnbs.

Parte 5 – Surge uma ponta de esperança

No dia 1 de Junho começou a saga dos Airbnbs.

Nosso primeiro airbnb ficava na cidade de Decatur, pertinho de Atlanta. Ficamos felizes por termos uma casa com quintal e um deck, pra gente tomar uma cervejinha nas noites de verão. Reservamos esse local para os meses de Junho e Julho, acreditando que até lá já poderíamos viajar. Estávamos até animados.

A realidade foi bem diferente. A casa não era tão boa assim, o sofá era extremamente desconfortável, a cama era tão ruim que chegamos a dormir no chão em cima de um edredom em algumas noites e definitivamente não conseguíamos ficar no quintal por causa dos pernilongos.

Com a Lara engatinhando, era impossível ficar em casa, mas estávamos no alto verão, fazia mais de 40 graus todos os dias, então ficava difícil fazer coisas ao ar livre e obviamente não podíamos ir a lugares fechados.

Acabamos criando uma rotina. Dividimos os horários com a Lara, para cada um poder fazer as suas coisas, e todos os dias saíamos para dar uma volta de carro, uma ou duas vezes ao dia, para passar o tempo. Os dias nesse Airbnb eram muito longos, muito longos. Eu comecei a ficar com uma ansiedade louca, porque eu sou uma pessoa que gosta de ter controle das coisas, mas nesse momento não havia nada que eu podia fazer além de esperar. Voltei a fazer terapia.

Enquanto isso a situação do Covid só piorava nos Estados Unidos e as fronteiras da Europa continuavam fechadas, sem previsão de abrir. Mas a União Europeia se reunia a cada 15 dias e decidia para quais países eles iriam abrir a fronteira, a gente sempre ficava na ansiedade de ver se iriam abrir para os EUA. Nunca abriram.

Na metade de Julho, quando a gente percebeu que não ia viajar naquele mês, eu me deparei com um post no Instagram de alguém falando sobre um visto de empreendedor para Portugal. Eu acredito em sincronicidade e acredito que eu vi aquele post (completamente aleatório), por um motivo. PE não acredita, acha que tudo é coincidência.

De qualquer maneira conversamos com a Fabiana, a pessoa que já estava nos ajudando com a documentação pra viajar, e ela nos disse que com esse visto a gente poderia entrar no país. Nesse momento começou o processo para eu abrir a minha empresa em Portugal. Não vou entrar em detalhes, mas posso dizer que quem acha o Brasil burocrático, precisa conhecer Portugal. Começamos a reunir a papelada, apostilar documentos, e eu tive que preparar um plano de negócios. Tudo isso levou mais tempo que o esperado e fomos embora desse Airbnb (no final de Julho) sem ter dado entrada no visto.

Alugamos o outro Airbnb por 2 meses também, até o dia 26 de Setembro, na esperança de que conseguiríamos viajar até lá. Nos mudamos no dia 30 de Julho.

Parte 6 – Finalmente algo para comemorar

Começa Agosto e nós vamos para o nosso próximo Airbnb. Esse nós amamos. Uma casa pequena, mas muito funcional e, principalmente, muito confortável. Sofá maravilhoso, cama e travesseiros macios, ótimo quintal e uma localização excelente, cheia de parques e ruas tranquilas para andar de carrinho com a Lara. Nessa casa a Lara aprendeu a andar e comemorou seu aniversário de 1 ano com uma festinha virtual.

Mas claro, a gente já estava há mais de 4 meses só gastando nossas e economias, sem poder trabalhar, em uma casa super boa, mas que não era nossa, e ainda sem previsão de ir embora.

A verdade é que Airbnbs são ótimos para férias, mas morar em um não é tão fácil. Não é sua casa, não são suas coisas. E no nosso caso, as nossas roupas estavam todas em malas, a gente não tinha espaço pra arrumar tudo e se organizar bem, e nem queríamos fazer isso já que a gente queria estar pronto para viajar a qualquer momento. Coloca uma criança e dois cachorros na equação e a confusão é total.

Passamos o mês de Agosto inteiro preparando todas as documentações para dar entrada no visto. Cada vez que a gente achava que estava pronto para mandar aparecia mais alguma coisa. Paulo Eduardo conhecia os funcionários da UPS pelo nome porque ia lá todo dia imprimir, escanear, notarizar ou algo assim… mas o processo não tinha fim. E taxas também, toda hora aparecia uma taxa nova pra gente pagar.

O grande problema é que com o Covid as agências do governo e os consulados estavam trabalhando em esquema de contingência, a gente não conseguia falar com ninguém pra obter informações. E o site do governo e consulado português não ajudava porque eles davam informações sobre o que fazer sendo americano e estando nos EUA ou sendo brasileiro e estando no Brasil, não tinha nada sobre o que fazer sendo brasileiro e estando nos EUA.

Depois de muito sofrimento, ataques de ansiedade, choradeiras (da minha parte) e ameaças de largar tudo e ir pro Brasil, no dia 31 de Agosto a gente conseguiu mandar os documentos para a agência que cuida dos vistos portugueses. Foi uma festa só, muitas garrafas de vinho foram tomadas para comemorar.

Mas aí surgiu outro problema, o prazo deles para responder era de 4 a 8 semanas. A gente tinha mais 4 semanas nesse Airbnb, então não daria tempo de viajar e teríamos que ficar mais tempo e, claro, como tudo tem que ser difícil, a casa em que a gente estava já estava alugada e a gente teria que buscar outro Airbnb. Achamos um que gostamos médio, mas que atendia os nossos requisitos de poder levar cachorro, ter um quintal para os mesmos e ser perto de Atlanta. Fechamos esse até o final de Outubro. Viajar com cachorro não é fácil e não é barato, mas vou deixar isso pra outra conversa.

Parte 7 – Saiu o visto!

Dia 31 de Julho a gente mandou os documentos para o visto de Portugal, prazo de 4 a 8 semanas para a resposta, reservamos um novo Airbnb para o mês de Outubro.

Lá pelo dia 15 de Setembro decidimos passar na frente do novo Airbnb para ver o que nos esperava, spoiler alert: não gostamos do que vimos. Mas enquanto estávamos lá uma pessoa do consulado português me ligou para me pedir para enviar mais alguns documentos. Ficamos animados, entendemos que a coisa estava correndo bem e que eles estavam analisando e ainda não tinham negado. Mandamos naquele dia mesmo.

No dia 20 de Setembro, Paulo Eduardo tinha saído com os cachorros, eu recebi o email confirmando a aprovação do visto. Saí correndo na rua descalça e de pijama gritando que tinha sido aprovado, PE quase morreu de susto, mas ficamos felizes e bebemos mais vinho. Agora a coisa ia. Mandei meu passaporte para eles botarem o visto e eles devolveram em dois dias.

Nessa semana era também a nossa mudança, arrumamos tudo, recolocamos coisas na mala, desmontamos o berço da Lara, tudo aquilo que a gente já estava acostumado a fazer e na sexta-feira fizemos nossa mudança para a casa nova. Esse Airbnb tinha um cheiro insuportável de xixi de gato e a cerca do quintal era baixa e a gente não podia deixar os cachorros lá fora, mas não importava, a gente tava preparado pra ir embora o mais rápido possível.

Começamos a olhar voos para os cachorros e no fim contratamos uma empresa para organizar tudo porque a coisa é bem mais complicada do que a gente imaginava. Tivemos que pagar super caro pelos exames médicos, as gaiolas que a gente tinha não serviam, tivemos que comprar outras, mandamos mil documentos, um vai e volta de emails, até que finalmente conseguimos ter tudo em ordem e compramos a passagem dos dogs para o dia 9 de Outubro.

Aí as coisas começaram a dar errado de novo.

Parte 8 – Final – Deu tudo errado antes de dar tudo certo

Viagem dos cachorros organizada, compramos nossa passagem para o dia 10 de Outubro, assim chegaríamos todos no dia 11. Mas quando fomos ver a confirmação o pagamento não tinha caído e a passagem não tinha sido comprada e, como não poderia deixar de ser, o atendimento da TAP tinha encerrado há exatos dois minutos.

Madruguei no dia seguinte e consegui comprar nossas passagens, tudo certo. Até que chegou 10h da manhã e descobrimos que Portugal havia mudado as regras para a entrada da família e Paulo Eduardo e Lara precisariam de um visto, não poderiam entrar comigo como a gente tinha imaginado (porque o visto estava no meu passaporte). Nem quero entrar nos detalhes da coisa porque só de pensar eu fico com ansiedade, mas a gente não conseguiu ter um dia de paz, toda hora algo dava errado. Com a situação do Covid, a cada 15 dias Portugal estava revendo as regras para entrada no país e mais ou menos uma semana antes eles decidiram mudar essa.

Saímos desesperados ligando pra consulado e outros órgãos tentando ver o que podia ser feito, mas como toda a situação era nova pra todo mundo, a gente não conseguia uma informação consistente. Até que a Fabiana veio a nosso socorro novamente e entrou com um pedido de autorização extraordinária junto ao órgão de imigração português para que eles viajassem comigo. Mas o pedido podia ser negado ou eles poderiam demorar um tempo indeterminado para responder e a gente iria viajar em 1 semana.

Bom, foram dias de estresse absoluto, muitas discussões sobre cancelar ou adiar tudo e perder um pouco de dinheiro ou esperar e arriscar perder muito dinheiro. Teve muita choradeira (novamente da minha parte), mas finalmente conseguimos a autorização para que eles entrassem. E olha que coisa, eles deram a autorização baseados no fato de que eu sou cidadã italiana, mesmo não tendo o passaporte. Aí sim comemoramos.

Porém, e nessa história sempre tem um porém, descobrimos que teríamos que apresentar um teste de covid negativo feito com, no máximo, 72 horas de antecedência. Fomos pesquisar e o governo tinha um teste gratuito que demorava até 72h pra sair o resultado, marcamos para 71 horas antes do voo e pronto, agora era só esperar, a gente tava isolado mesmo então não teria problema.

Nope, nada feito. No dia seguinte o ralo do banheiro e a privada entupiram, tivemos que ligar para o dono do Airbnb e ele ficou de mandar alguém pra consertar. Veio um cara, sem máscara, ficou duas horas e decidiu que precisava chamar outro cara. Veio o outro, também sem máscara, e ficou mais uma hora. Nesse momento eu tive certeza que a gente tinha pegado covid e não ia viajar, já tava até refazendo os planos.

E vejam vocês, a gente passou 6 meses nos EUA sem trabalhar. Todo dinheiro que a gente tinha guardado para viver os primeiros meses na Europa estava se esgotando, a gente não tinha como ficar muito mais tempo.

Mas fomos lá fazer o teste de covid do governo, rápido e fácil, poréeeeeemmmm, no local do teste estava escrito que podia demorar até 5 dias (diferente das 72 horas que dizia o site). Desespero de novo, a essas alturas eu já tava achando que o Universo estava dizendo que era pra gente não vir. Mais choradeira.

Começamos a procurar testes particulares que tivessem resultados mais rápidos. Achamos, mas eram muito, mas muito, mas muito caros, vender um rim de caro. A essas alturas eu já tinha quase desistido, não fosse pelo apoio da minha mãe e do meu pai (e de várias outras pessoas que me ouviram durante esse período) eu teria jogado tudo pro ar.

No fim fizemos o teste particular, mas como o destino estava fazendo graça com a gente, o resultado do teste do governo chegou em menos de 24 horas, antes do particular.

Mas a verdade é que não descansamos até pisar no lobby do aeroporto de Portugal, porque muita coisa ainda podia dar errado. Mas finalmente chegamos, o aeroporto e os voos foram outra novela, mas eu acho que já está na hora de encerrar esse capítulo. Deu tudo errado nessa última semana em Atlanta, mas no final deu tudo certo e é isso que importa.

Obrigada a quem me acompanhou até aqui e um lembrete pra quem decidiu que o covid não é tão grave e não vai usar máscara porque prefere correr o risco, saiba que você está decidindo colocar outras pessoas em risco, seja pela saúde ou seja em situações como a nossa. Usa a porra da máscara.

5 comentários sobre “O Covid, Portugal e a Novela Mexicana

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s