E depois que a gente chegar “do outro lado”?

Não, esse não é um texto sobre vida após a morte, é apenas uma reflexão sobre a vida pós Covid-19.

Nos primórdios do Covid, lá em Março de 2020, quando todo mundo tava super animado que ia passar mais tempo com a família, fazendo pão caseiro, se inscrevendo em cursos online, lavando as mãos por 20 segundos a cada 15 minutos e desinfetando laranjas individualmente, eu lembro que tive várias conversas (por whatsapp na sua maioria) sobre o que mudaria no mundo e nas pessoas depois que tudo isso acabasse.

Naquela época poucas pessoas imaginavam que esse negócio ia durar mais de um ano e que se espalharia para o mundo inteiro como aconteceu. Quer dizer, os cientistas nos alertaram, mas poucos acreditaram (eu inclusive). Mas nessas conversas a única coisa que parecia ser consenso, ou quase, era o fato de que o trabalho remoto tinha chegado para ficar. Tudo mais tinha opiniões divididas, se as pessoas iriam mudar de comportamento, se máscara iria ficar, se a família iria ocupar um lugar mais central, se encontros por zoom se tornariam mais comuns e várias outras coisas que discutíamos. Muitos dos meus amigos diziam que não acreditavam que pessoas e comportamentos mudariam, que fora o home office, tudo mais permaneceria igual.

Ironicamente, passados dez meses do que consideramos o ínicio do Covid (confinamento, quarentena e tals), o trabalho remoto já não parece mais tão importante para muitos. Amigos que comemoraram trabalhar de casa agora não vêem a hora de poder interagir com outras pessoas no ambiente de trabalho, sentem que esse contato presencial faz toda a diferença. Eu mesma sempre achei que trabalho remoto não é para todo mundo, existe uma necessidade tão grande de foco e disciplina que para muitas pessoas não é produtivo (eu me incluo nesse grupo).

Poucas pessoas continuam fazendo pão caseiro, lavando a mão só por lavar ou desinfetando laranjas. Tá todo mundo de saco cheio, ninguém aguenta mais ficar em casa, quem tem criança então nem se fala. Estamos constantemente nos questionando se tudo isso é realmente necessário, se não dá pra abrir uma exceção pra ir comer num restaurante ou fazer uma happy hour com a turma. E aí que entra a minha reflexão.

Algumas pessoas flexibilizaram o Covid e outras não e isso trouxe uma mudança grande em muitos relacionamentos. Muita gente se afastou de membros da família e de alguns amigos por discordar da forma como eles estavam tratando a situação. Muitas pessoas, eu inclusive, usaram esse tempo para refletir sobre as pessoas que nos rodeiam e que tipo de valores e crenças elas têm que são compatíveis ou incompatíveis com as suas.

Para mim, a forma como nos relacionamos com outras pessoas vai ser a grande diferença quando chegarmos “do outro lado”. Não sei como isso vai funcionar na prática, ainda é tudo especulação, mas eu acredito que a forma como nos conectamos com outras pessoas vai ser bem diferente e que solidão que a maioria de nós está vivendo nesse momento vai ter muita influência sobre isso. Mas algumas conexões que foram perdidas dificilmente irão se recuperar e, no meu caso, eu acho que isso é o melhor que pode acontecer.

Para ser justa, posso dizer que também não pretendo mais fazer pão caseiro, deixar minhas compras de quarentena ou usar álcool gel até nos cachorros. Só quero poder comprar minha baguete em paz, sem ter que olhar pro lado e ficar imaginando quem naquele supermercado está com Covid e vai me contaminar.

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